A passagem escura



— Savana! Savana! — O grito de mamãe ecoava pelo hall da sala, enquanto eu ia em direção à porta — Savana?! Você não está me ouvindo?

— Estou… o que foi?

— Bombinha de asma na bolsa, certo, querida?

— Certo! Não sou mais criança mãe, sei do que preciso para não morrer, ok?

Seu cuidado exagerado me perseguia desde os sete anos, quando tive meu primeiro ataque severo de asma. Sim. Cresci sendo àquela que não podia pegar uma brisa fria, abrir um livro velho ou “tocar o terror” no parquinho do condomínio.

— Então até mais tard… — a voz dela se perdeu no meu bater de porta.

Segui a caminho do meu pequeno inferno astral na terra: o elevador. Mais de duas pessoas e a falta de espaço já gelava meu sangue. Mas descer doze andares de escadas não rolava para quem sofria de asma…

Elevador lotado e os primeiros dias da minha nova vida de estudante-universitária-com-um-carro-só-meu. Com o tipo de vida limitada e controlada que levava dirigir era um grito de liberdade.

Já no estacionamento, meu celular tocou:

— Fala, Barbie.

— Ei, você pode me dar uma carona? Só hoje, juro! Não vai dar para meu pai me pegar… e eu não quero ir de metrô, sabe? Fiz uma coisa no cabelo que não adianta te explicar mesmo, porque você não vai entender… E aí? Pode ser? 

— Certo, mas não vai acostumando! — Brinquei.

— Claro, garota asquerosa!

— Nem é no meu caminho sua faculdade…

— Estou esperando. Byyyyyyye…

Bárbara, que por motivos óbvios eu chamava de “Barbie”, era minha prima, mas não era só isso, ela era minha amiga desde criança, a melhor amiga. Mesmo sendo quase dois anos mais nova que eu, e possuindo uma personalidade tão distinta da minha. Ela preencheu o espaço vazio no meu peito gerado por uma família de filha única.

Guardei a mochila no banco de traz e arranquei. Dirigir me fazia sentir tão independente, adulta… Eu poderia passar o dia dirigindo.

Barbie, no portão de sua casa, parecia uma estátua, de mochila nas costas e celular na mão. — Ei… já ia te ligar de novo, demorou!

— Ok. Vou fazer de conta que me importo com a crítica e que não é um favor.

Ela apertou os olhos em sinal de protesto enquanto colocava o cinto.

— Gostou do meu cabelo? — Minha prima sacudiu a cabeça, fazendo os cabelos voarem de lado para o outro, como numa propaganda de shampoo.

— Parece Chanel, só que maior na frente.

— Você não entende nada de moda! — Ela se irritou.

— Mas está lindo! Você está linda! — Chamar de linda sempre encerrava qualquer assunto com a Barbie e eu aprendi a usar a meu favor.

Com trânsito calmo e os sinais verdes, consegui deixar Barbie num tempo que me permitiu pegar a melhor vaga no estacionamento da faculdade. O professor ainda não havia chegado, a sala estava vaga… Minha cadeira preferida desocupada. Aquelas pequenas sortes mereciam uma música:

Don’t worry, be happy!”

E sem me dar conta, comecei a canta – lá — “Don’t… Be happy…”

— Parece que tem alguém feliz hoje — levantei o rosto e vi Rob já  jogando os cadernos e sentando-se ao meu lado.

— É… sabe aqueles dias que não parecem se encaixar com minha vida de tropeços? … bem… é hoje.

Ele sorriu. — Sei como é, espero um dia assim há tempos.

Rob era meu amigo inseparável desde o primeiro dia de aula na faculdade. Era inteligente, prestativo, um fofo… Bem, e ali estávamos nós, no segundo semestre de Psicologia. Éramos os adolescentes que resolveram prolongar a terapia para a vida.

Pode crer! Quase um ano aqui me fez ter que conviver com todos os tipos de distúrbios, e nas cadeiras ao lado.

Todos os alunos já em sala e o professor, Friedrich, se esgoelava tentando disfarçar a rouquidão:

— Nós não temos livre arbítrio! Quando vocês cortaram o pão no café da manhã, o que vocês fizeram foi colocar em prática parte do arsenal genético, parte de todas as experiências de seus antepassados… no pão. Arquétipos. Mitologia. Que imagens formamos mentalmente com a manteiga na mão?

Rá! — Alguns alunos riram, mas ele continuou sério.

— O homem pode ter perdido sua transcendentalidade… mas os mitos continuam dentro de nós, perdidos em sonhos que tentamos desesperadamente decifrar, racionalizar! Estamos perdidos nesse caminho de volta, que nossos ancestrais passaram séculos para tornar a essência palpável… em mitos, em lendas. Não! Não! A nossa ciência não nos tornou deuses, ela apenas nos cegou!

Eu adorava Psicologia, mas algumas vezes me perguntava se era ali mesmo que deveria estar… “tudo tão louco”…

A aula se desenrolava quando Rob sussurrou — “que pseudo” — rimos.

— “Pseudo-cabalístico”… — murmuramos ao mesmo tempo, um encarando o outro.

Friedrich percebeu a brincadeira e nos fitou em repreensão, disfarcei olhando para as três janelas grandes na lateral à minha esquerda. Ele continuou com um tom mais calmo e observador.

A sala era ampla, no segundo andar, ocupada por seis fileiras longas de cadeiras. Uma das poucas sem ar-condicionado. O teto era forrado e isso nos obrigava a abrir a porta para que circulasse o vento, o que prejudicava ouvirmos a explicação, por causa do barulho de alunos na parte externa.

Mas esse professor, em específico, só dava aula nessa sala, ninguém mais a usava. Ele era velho, dizem que era tombado como patrimônio histórico da universidade, nem era tanto pela idade, sim pelo efeito de velhice sobre sua fisionomia, na sua maneira de falar e de agir.

Suas camisas de algodão eram sempre brancas, já as calças de tecido preto. Parecia que quando gostava de uma roupa usava até acabar. Ele vinha muito dar aulas com camisas furadas, entretanto, para nossa alegria, jamais veio de calças furadas.

Três ventiladores giravam no teto, fazendo um rangido que aumentava e diminuía. Era quase imperceptível, porém, quando estava inquieta pelo calor, tudo passava a me incomodar. Até mesmo a lousa que o professor sempre mantinha vazia.

Na minha cadeira, um caderno, as folhas eram daquelas com aspecto envelhecido e sem pauta, gostava de escrever assim, livre, sem as amarras das linhas retas e paralelas. Vez por outro rabiscava algo, como corações, carinhas tristes ou felizes, folhas, flores… e círculos, grandes, médios e pequenos, um dentro do outro, nos últimos meses eles estavam sendo uma obsessão.

Os galhos das árvores foram sacudidos com força pelo vento, jogando algumas folhas verdes pelas janelas… uma delas veio levitando calmamente e pousou no meu caderno. Uma linda folha verde, sem manchas, lisinha e brilhosa.

Levantei o caderno, fiquei olhando sem tocá-la, toda sala agitada do susto e o professor esperava que se acalmassem. Desci lentamente o caderno com medo que a folha voasse.

“Que bom…”

Uma sensação fulminante de queda me fez perder o equilíbrio, quase caí da cadeira, eu não sentia mais o chão ou qualquer referência estável…

“O que está acontecendo?”

Olhei minhas mãos e pareciam mais distantes que o normal, elas começaram a coçar como se fossem devoradas por formigas, minha garganta ardia, meus braços se cobriam de enormes bolões vermelhos protuberantes, minha visão começou a ficar turva…

Senti uma forte sensação de morte.

“Eu não quero morrer!”

Olhei para o lado, estiquei o braço, tentei falar, mas o único barulho que saiu foi um som gutural, que não parecia vindo de mim:

— Ainda…

Rob arregalou os olhos, desesperado, e veio na minha direção. Vi todos levantando e correndo até mim. Eu despenquei no chão, meu corpo fervia em formigamentos, minha visão escureceu.

Apaguei.