A sintonia com o pai



 

O final de semana foi lento e vazio.

Às horas se arrastavam numa brincadeira de pique-esconde, na qual elas sempre estavam um passo à frente…

Pela casa, Nana Caymmi cantou “Resposta ao tempo” várias vezes, como se mamãe pudesse, mesmo sem saber, dar um conselho válido.

Quase não saí do quarto. Sentia-me partida. As imagens podiam ter sido “bloqueadas” pelas luvas, mas eu não conseguia relaxar, minha cabeça só pensava em Dante.

Levantei da cama e fui até o banheiro.

No meu pescoço, uma mancha roxa começava a aparecer na parte que ficou dolorida do beijo dele, provando que aquela sexta tinha sido real…

Olhei meu rosto no espelho… e pensei que eu sempre tentei ser normal. Tentei mostrar que compreendia os outros, mas tudo era uma fachada borrada, hora translúcida, hora chapada…

Quem sou eu?

Sou alguém que ninguém conhece. Sou alguém que nunca ninguém viu. E enquanto tento ter gestos e falas compreensíveis, a outra “eu” grita lá dentro sem conseguir ser convincente ou se libertar.

Enquanto eu era sugada pela minha filosofia de espelho, mamãe bateu à porta:

— Savana? Abre aqui!

— Espera.

Soltei meu cabelo, derrubando-o sobre meu pescoço, escondendo a parte roxa.

— Sim? — Destranquei a porta.

— O que aconteceu? Você está se sentindo bem? Está com um olhar tão vago. Você está com febre? — Estendeu a mão em direção à minha testa.

— Você pode me deixar, pelo menos um dia, à vontade no meu quarto? — Pedi compassadamente.

— Posso, querida, é claro que posso… É porque seu pai ligou. Ele vem pra casa! Vai passar dois dias com a gente!

Meu coração se encheu de alegria. Pulei sobre ela, abraçando-a. Com todos aqueles últimos acontecimentos tinha esquecido a folga de papai.

— Sabia que ficaria feliz! Vamos, vamos, vá tomar um banho… Daqui a pouco ele chega!

A única coisa certa que minha mãe tinha feito na vida foi a escolha do meu pai… Ele era fantástico, educado, carinhoso… esforçado.

Quando ela ia saindo, antes de passar pela porta:

— Por que as luvas?

Brequei.

— São… Por… por… causa das alergias, sabe? Protegem-me da poeira… — Se eu bem conhecia minha mãe, aquele discurso não a convenceria.

— Bem, depois conversamos melhor… mas você sabe, não é? Luvas podem acalmar você, mas não vão protegê-la.

Senti no seu tom o quanto aquilo poderia levá-la há uma preocupação sobre minha sanidade. Eu tinha que acalmá-la de alguma forma, então tentei parecer sincera:

— Mas me faz sentir segura. Se você pudesse respeitar isso…

Ela sorriu de maneira compreensiva, mas nada falou, apenas saiu, fechando a porta.

O uniforme branco deixava aquele “jovem senhor” charmoso, mas o que ele tinha de encantador eram as qualidades da sua personalidade… ele era  simples, acessível…

— Savana! Como você cresceu! — Comentou, enquanto gargalhava.

— Ai, pai… — dei um abraço apertado.

Papai sempre falava isso, quando voltava de viagem, desde minha infância. O que havia se tornado uma piada interna, porque eu não cresci mais desde os meus treze anos, o que me colocava entre as baixinhas de 1,60 cm.

— Que saudades, querida. Você está bem? Desculpa por não ter estado aqui para acompanhá-la no hospital.

— Correu tudo bem. Foi apenas uma reação alérgica…

— Mas já passou, querido — falou mamãe, aproximando-se da gente e abraçando-o.

A sensação de família só existia quando papai completava o trio. Com mamãe e eu, apenas, parecia um emaranhado de desavenças… que fazia nós duas ruirmos lentamente.

Meu pai nunca bebeu, mas tinha um hobby estranho, ele colecionava absinto.

Na sala, um número cada vez maior de garrafas ocupava a estante. Elas eram exibidas como troféus de caçadas. Entretanto, uma ficava escondida, era o símbolo maior da ligação dele com meu avô, acreditava eu.

Ela datava do século XIX e, segundo meu pai, meu bisavô comprou na França, junto com outras duas, que foram tomadas numa mesa de cabaré. Um dos homens que o acompanhava era um conhecido pintor de cartazes época.

Sentado no sofá, ele observa sua preciosa coleção. Acomodei-me ao seu lado.

— Que tal abrirmos uma? — Perguntei para desafiá-lo.

— Espero nunca ter que fazer isso, querida. A não ser que você me dê uma dor de cabeça daquelas!

— Ah, pai! Você sabe que eu sou um doce. — Falei, aninhando-me em seus braços.

— Sei sim.

Ele passou um tempo calado, olhando sua coleção.

— Colecionar algo é como preservar memórias. É uma maneira de dizer: “nunca vou esquecer”. Eu coleciono essas garrafas não pelos objetos em si, mas pelo momento que representam. — Ele levantou-se e abriu o armário, me mostrando a garrafa mais antiga — é uma tradição meio torta dos homens da família… — Ele a guardou, fechou o armário, pegou outra garrafa, agora, na estante, bem mais nova e de rótulo vermelho — é uma maneira de dizer que nunca vou esquecer aquela semana na Itália com sua mãe… quando ela me disse que estava grávida de você.

Fui até ele e o envolvi em meus braços.

— Que bom ter vindo pra vocês. — Falei sem entender ao certo porque disse aquilo

Os dois dias com papai em casa passaram rápidos e, quando ele foi embora, meus pensamentos em Dante ganharam nova força.

Quinta feira, e há quase uma semana eu não tinha notícia nenhuma de Dante. Começava a ter certeza que não o veria nunca mais, e aquilo era desesperador.