As visões



“Olho para cima e vejo um pássaro num galho: enquanto mantenho meus olhos no pássaro, meu cérebro continua a registrar um objeto percebido. Fecho meus olhos, mas se desejar ainda posso ver o pássaro com os olhos da mente. O que eu ainda ‘vejo’ (ou seja, retenho) é uma ‘imagem’ do pássaro.”                                                                                                                      

(Herbert Read)

 

Fui abrindo os olhos lentamente e minha visão embaçada me permitia ver apenas manchas e não o cenário em si. Aos poucos, e após sucessivas piscadas, tudo foi voltando ao normal.

A cena era:

Eu deitada num quarto de hospital, com algumas aparelhagens de medições cardiológicas e uma TV ligada em volume baixo.

Num jornal:

“… moradores inconformados com a proposta de indenizações, feita pelo governo abaixo do valor de mercado por imóveis desapropriados, protestam com barricadas e bloqueios contra a tentativa de os removerem de suas casas…”

Mamãe dormia do meu lado esquerdo numa poltrona próxima à cama.

Eu tomava soro na veia, o esparadrapo incomodava meu braço, sentia-me estranha, minha cabeça corria a mil, eu não cabia dentro de mim, mas meu corpo parecia estar com uma enorme ressaca de tequila. Eu sei porque tive uma, uma vez, forçada por Barbie para comemorar meu ingresso “no mundo dos loucos”, traduzindo, na universidade.

Mamãe mexeu-se — querida… — Levantou-se e ficou em pé ao meu lado.

— O que aconteceu? — Perguntei ainda zonza.

— O médico falou que você teve um choque anafilático.

— Mas como?

— Parece que…

Enquanto mamãe falava, olhei a parede a minha frente e um pequeno ponto de luz a atravessou. Pisquei várias vezes, na esperança que desaparecesse, mas ele foi se aproximando rapidamente, sofrendo uma distorção surreal.

A luz foi se tornando opaca, ganhando a forma de um cavaleiro medieval, correndo do lado de seu cavalo. A imagem se distorcia numa perspectiva irreal. Pensei em gritar, mas antes eles se desintegraram como fumaça, a centímetros do meu rosto.

Outros pontos luminosos começaram a surgir, se tornando leões, pratos, camas, facas, rinocerontes, vestimentas… Era uma salada de imagens solta a minha volta.

— Savana? Você está bem? — Mamãe tocou meu braço e ela era real, eu sabia porque ergui minha mão e segurei fortemente a dela. Ela era palpável. As imagens que se movimentam em minha direção pareciam fotografias estáticas. O movimento era fruto apenas da distorção da imagem.

Na adolescência havia tido sonhos parecidos, mas era eu me aproximando de alguma coisa em alta velocidade e depois presenciando a sua desintegração. Devia ainda estar sonolenta… ou… olhei novamente para mamãe — Acho que não me sinto bem, me deram alguma coisa?

— Sim, antialérgico…

— Me deram algum calmante? Algo diferente? — Eu sabia que alucinações poderiam ser efeitos colaterais… e já havia feito quatro anos de terapia, jamais diria a minha mãe que estava vendo “coisas”, mesmo nessas circunstâncias ou, como bem sei, ela me enjaularia.

Fechei os olhos, tentei relaxar, a voz dela novamente começou a fazer sentido. — Não se preocupe, você tem alergia a ácaro. A reação alérgica deve ter sido por causa da poeira no ar-condicionado. Sabe como é universidade pública em país que não valoriza a educação: um lixo.

— Na sala não tem ar-condicionado… — falei, sentindo que de fato não tinha nenhuma explicação e não era por causa de sua afirmação sobre o ar-condicionado. Há tempos eu não tinha uma crise alérgica e as que tive, fora a primeira que foi uma convulsão, foram com falta de ar, nada de reação alérgica. Nunca havia tido um choque anafilático na vida. — Tudo foi tão rápido… Quanto tempo dormi?

— Dois dias.

— Não acredito que tenha dormido tudo isso… É um absurdo! Parece que apaguei há minutos.

— Estávamos todos preocupados, porque aparentemente não tinha nada de errado, mais você não acordava… Que bom que agora está tudo bem.

— Quando posso ir pra casa? — Aquele ambiente de hospital era ruim e com o tipo de saúde frágil que tinha, ficar muito tempo ali não era uma boa ideia.

— Não sei, vamos ver o que o médico fala amanhã, após examiná-la — mamãe parou por um momento, me fitou da cabeça aos pés — Seu corpo ficou completamente inchado e vermelho, você precisava ver quando cheguei aqui…

— Não me fale, por favor! — Pensei em todas as pessoas em volta de mim na sala de aula, presenciando aquele filme trash no qual eu era a protagonista. Minha vontade era de jamais voltar lá.

— Seu amigo ficou aqui até anoitecer nesses dois dias.

— Rob?

— Sim.

— Barbara também passou aqui… Sua tia não anda num bom momento…

— E papai? Ele sabe? Você falou com ele? — Cortei seu comentário. Não estava pronta mentalmente para as fofocas de mamãe.

— Sabe, sabe sim. Está tentando dar um jeito de arrumar alguém para substituí-lo. Talvez amanhã ele chegue.

Meu coração vibrou com a notícia. Eu quase não o vejo. Ele era piloto de uma grande companhia aérea. A maior parte do seu tempo era no ar. Ele era viciado no que fazia…

— Mas não devia tê-lo preocupado. Foi só uma reação alérgica… — tentei disfarçar minha alegria.

A cada vez que abria os olhos, imagens soltas voavam pelo quarto. Tentava não gritar e fechava-os. “Vai passar”, repetia mentalmente.

— Quem me trouxe para o hospital? Foi Rob?

— Sim, junto com um professor… velho, estranho. Te olhava esquisito… Segurou sua mão, quando você já estava aqui no quarto. Olhou em volta, depois encarou aquela parede e foi embora. Nem se despediu.

Olhei a parede indicada por mamãe… e era… e era um espelho, que tomava toda a parede do quarto. Como ainda não tinha visto?

— É um espelho!

Mamãe me olhou, franziu a testa — que espelho? É só uma parede azul! Que aliás é de péssimo gosto. Hospital tem que ser branco, sempre! — Ela suspirou — Você se sente bem? Está tendo algum tipo de alucinação? — Nada podia contra mamãe. Ela tinha um faro incrível para tudo que era estranho ao meu respeito.

— Não! É claro que não! É só um espelho do céu, que também é azul… — Tentei fazer uma poesia torta com o pouco talento que tinha. Ela franziu a testa e acreditou.

Fechei novamente os olhos, apertei, abri e olhei o espelho, ou melhor, a parede. Tudo igual. Movimentei o braço, pisquei, inclinei a cabeça, e a imagem respondia da mesma maneira, como um espelho. Fechei novamente os olhos. Como aquilo se processava na minha cabeça não era racionalmente aceitável.

Ver algo que não existia deixava em cheque tudo o que existia. Em algum momento as coisas se fundiriam e como eu poderia distinguir entre o “real” e o “irreal”…? Como?

Lembrei que passei grande parte da adolescência tentando ser alguém que não era. Tentando provar a mamãe que eu não era calada, introspectiva… Sempre que ela me via quieta, dizia: “acorda Savana”, e apontava o relógio: “Esse tempo é real, não esse aí dessa sua cabecinha!”

— Que horas são? — Perguntei, tentando ter aquele eixo norteador novamente… O tempo dela.

— Quase três da manhã.

— É madrugada. Preciso dormir. — Talvez de manhã tudo já tivesse passado.

— É mesmo querida… Nós precisamos. — Falou mamãe com um rosto sonolento e cansado. — Mas antes vou fechar a TV.

— Não, deixe ligada, por favor. Noticiário sempre me faz dormir mais rápido. — Ela riu e se acomodou na poltrona novamente.

Em volume baixo eu ouvia a repórter:

“… o governo do estado foi procurado pela nossa produção, mas se mantém calado e a empreiteira responsável pela obra, uma subsidiária da W&E, que é uma organização nova no mercado, também ainda não se pronunciou… Mas existem rumores que o administrador majoritário do grupo desembarcou há dois dias na cidade…”

Focar-me no que estava sendo falado me ajudou a desligar das anomalias a minha volta e a mergulhar dentro de mim. Sempre fui perdida nos meus próprios pensamentos, às vezes eu simplesmente me desconectava do mundo lá fora.

Entre aquelas lembranças nem me dei conta de quando dormi.

 

 

— Savana? — Cedo da manhã ouvi alguém chamar meu nome. Era o médico. Um senhor de meia idade, de jaleco branco, estetoscópio no pescoço e um sorriso acolhedor.

— Vamos fazer umas verificações, senhorita — falou, checando meus olhos, ouvidos, garganta…

Uma enfermeira se aproximou e retirou o soro. Mamãe, de prontidão, observava tudo.

Para meu desespero, nada havia mudado. Pelo contrário, as imagens estavam mais intensas. Insistentes. Mas o fato de elas não interagirem ajudava a não falar com um jegue ou a não tentar estourar o médico com o indicador.

— Bom, ela parece bem!

— Rá! — Não consegui me conter e dei uma risada.

O médico continuou sério.

— Assim que você chegou, nós lhe demos uma injeção de epinefrina intramuscular, anti-histamínicos e corticosteroides. Vou deixar apenas o anti-histamínico e suspender os outros, você vai tomar um comprimido de 2mg três vezes ao dia, por mais dois dias. Ok? E já vai poder ir para casa. — Falou, rabiscando num bloquinho de receitas.

— Eu posso ter outro choque desses? — Desviei os olhos com medo da resposta.

— Sim, mas vou lhe dar uma lista de alimentos, remédios… para evitar, pelo menos por enquanto.

— Eu sei de todas as coisas que devo evitar. — Calei-me, suspirei — Foi tão… tão… sobrenatural. — Falei vendo-o ser atravessado por um manto de tecido velho e com receio das interpretações que pudesse causar a palavra sobrenatural.

O médico deu uma longa risada — não tem nada de “sobrenatural” — brincou fazendo o sinal de aspas com os dedos — numa garota com histórico de alergia, ter uma reação alérgica ou um choque anafilático. — Ele estendeu a mão — você vai ficar bem, só tente repousar — me cumprimentou, entregou a receita para minha mãe e foi saindo.

Com certeza se ele visse todas as barbáries que voavam soltas pelo quarto não falaria aquilo… Será que eu bati a cabeça e fiquei louca? Ri de mim, movimentando os ombros.

— Que foi, querida? — Mamãe me olhou intrigada e seguiu o médico, sussurrando algo para ele.

Meu celular, solto numa mesa lateral, tocou — Pai?

— Oi, querida! E aí como você está? Estou tentando fugir aqui…

— Bem! Não se preocupe, vou pra casa hoje. — Sabia quanto o trabalho era importante para ele. Minha mãe aprendeu a estar sempre em segundo plano, mesmo que a contragosto, por que eu também não poderia fazer o mesmo?

— Então se é assim, apareço na folga como tínhamos combinado antes. Certo?

— Sim, realmente, não se preocupe. — É… fazer o quê…

— Te amo, filha.

— Também te amo, pai.

Desliguei o celular.

Imagens povoavam o quarto, pelas paredes, no ar, vindas do chão… Animais se tornavam monstros devido às distorções de perspectiva. Mas tudo era rápido. Eles se tornavam fumaça antes de me atravessar, mas sempre vinham mais.

Era um pesadelo.

Meu coração batia descompassado sem acreditar que aquilo era só miragem. Levantei a mão na tentativa de tocar numa imagem que me lembrava um copo de pedra. Ele vibrou no ar quase se fragmentando e, quando o toquei, atravessou minha mão e desapareceu.

“Tenho que manter a calma!”

Pelo menos os anos de terapia serviram para alguma coisa. Eu conseguia manter o equilíbrio onde a maioria gritaria enlouquecida. Eu aprendi a surtar apenas na minha cabeça, para os outros eu me mantinha, aparentemente, normal.