Entre álcool e suor



            “Só se vê bem com o coração. O essencial é invisível aos olhos.”

(Antoine de Saint-Exupéry)

 

Cheguei em casa e fui direto para meu quarto, peguei o notebook, deitei na cama e comecei a pesquisar sobre a W&E na Internet. Descobri que o dono era desconhecido, quase um fantasma, mas detinha um dos maiores patrimônios das Américas.

Quanto mais pesquisava sobre ele, mais pensava nele, como um vírus me deixando em pane, pior do que as imagens…

“Droga, as imagens…”

Minha mente estava tão dominada pelo pensamento em Dante, que conviver com aquele “Festival de Cinema de Cannes” parecia suportável.

Mas peguei as luvas e vesti-as novamente.

“É melhor não arriscar.”

“E se eu não vê-lo mais? Nunca mais?”

Minha barriga embrulhou e uma ânsia de vômito me fez correr para o banheiro… Vomitei uma água amarelada, sem comida alguma.

Voltei para a cama, dormi e tive um sonho confuso e assustador.

No sonho eu era uma criança e corria por uma floresta densa e escura, pássaros gigantes de olhos da cor de um azul brilhante surgiam de dentro da terra e me amedrontavam. A qualquer momento eu seria devorada.  De súbito, o mais feroz de todos voou na minha direção, com bico aberto. Eu podia ver dentro dele e era um enorme precipício.

Acordei.

“Não, não…” — Gritei, abrindo os olhos, sentindo todo o meu corpo molhado de suor.

A campainha tocava freneticamente.

— Já vai! Já vai!

Levantei e fui atender a porta.

O pesadelo me fez lembrar os sonhos da minha infância e adolescência. Eram sempre com pássaros. Eu existindo como pássaro, voando pelo céu, pelas florestas, livre…

Mas o que mais me intrigava nesses sonhos era que não era a minha mente que controlava o corpo do pássaro, mas o corpo que controlava todas as ações e deixava a minha mente numa situação passiva e aprisionada.

O instinto me guiava? Ele sabia o que fazer?

Talvez a vida fosse assim. Talvez não tenhamos controle algum sobre nós mesmos. A diferença, quem sabe, seja que não sabemos disso.

— Demorou, garota! — Barbie me tirou do modo auto e entrou empurrando a porta sem nem me deixar abri-la por completo. — Te liguei um milhão de vezes! Que cara é essa? Você está péssima!

— É, eu sei… Tive um pesadelo horrível… Acordei com o toque da campainha.

— Está só? Cadê sua mãe?

— Você quer dizer sua tia? — Ela, assim como eu, tinha problemas com mamãe, que não concordava com nossa amizade. — Não chegou do trabalho… O meu dia hoje foi de cão!

Barbie sorriu —… E quando não é? Você que tem uma paciência infinita pra suportar!

— Não é brincadeira! — Falei tentando levar seriedade a minha voz. — Bati o carro!

— Você está falando sério? — Barbie agarrou minha mão e me arrastou para o sofá. — Luvas? São aquelas do Halloween? — Ela perguntou franzindo a testa.

— Não, por favor! Não quero ter que explicar isso.

— Ok, então me conta como foi o acidente… — Sua preocupação me salvou de ter que falar das luvas. Ufa!

— O cara do outro carro era estranho, avançou o sinal… — E fui contando o que dava…

— Dante Alighieri? Lindo? Você rasgou um cheque de cinquenta mil? Realmente sua vida na última semana foi de Coca Light para whisky escocês!

Ela tinha razão.

Nada daquilo era comparável aos meus dias de fazer tudo igual… Minha cabeça precisava equilibrar aquela nova realidade, repleta de visões e situações “lokas”, com a realidade antiga.

Não estava sendo fácil.

Eu precisava me estabilizar antes de pedir ajuda. E, com certeza, Barbie não seria essa ajuda.

— Vai atrás desse Dante de novo. Ele tem que pagar pelo conserto!

— Não. Quando minha mãe chegar vou conversar com ela. Dizer que bateram no carro e fugiram…

— Me leva lá na garagem? Quero ver o estrago. — Falou, me arrastando novamente e pegando a chave do carro na mesa.

Descemos até o estacionamento do condomínio.

Mas quando chegamos perto, para nossa surpresa… — Mas, mas… ele está perfeito, sem nenhum um arranhão?! — Barbie deu uma volta em torno dele. — Nem um arranhão — e antes que ela pudesse duvidar da minha história: — olha! Tem um bilhete aqui no para-brisa.

— Me dá…! Me dá! — Ordenei indo até ela.

Mas minha prima leu rapidamente:

— “Não existem culpados na escuridão. Até mais, Dante.” Bom, pelo menos ele existe — falou rindo — porque já estava começando a duvidar. Mas vem cá, como ele fez isso?

— Eu não sei!

— Será que é o mesmo carro? Vê a placa.

Fui à traseira do carro e verifiquei, OIA 1722 — Sim. É a mesma placa. Espera, vou ver o chassi!

— Ver o quê?

— É meu carro! Como ele fez isso? — Meu coração vibrava de medo e felicidade.

Abri a porta, dei uma geral nos bancos, no porta-luvas… Tudo no mesmo local. Então me ocorreu de tocar o lugar consertado… nada fazia sentido… e eu não tinha o que perder.

Tirei uma das luvas e enquanto Barbie fuçava o cartão, fui até o amassado, toquei parte do capô do carro, mas era como as visões de outros metais.

— Barbie me dá o cartão! — Esbravejei, quase tirando o cartão de sua mão.

— Ok, senhorita nervosinha. — Entregou-o, enfim.

E quando peguei o papel, vi a mesma escuridão do meu sonho e meu braço inteiro arrepiou-se, como quando toquei o vidro do escritório de Dante.

— Bom, vamos subir. Eu vim te ver porque acho sua vida monótona e iria te chamar para sair pela milésima vez, na esperança de você descer da torre Cinderela. Você poderia até chamar aquele gato da sua faculdade que “te ama”. — Ela levou os dedos aos lábios como se dissesse “falei demais?”. — Mas, pelo visto sua vida tem andado intensa — metralhou Barbie naquele tom de stand up que sempre usava.

— Não é Cinderela, é Rapunzel e ele não me ama.

— Rapunzel é baseada em fatos, no caso, sua vida. — Ela caiu na gargalhada.

— Quer saber? Vamos nessa! — Falei, calçando a luva e seguindo com ela para o elevador. — Vou para onde você me levar.

Nunca fui de sair à noite.

Realmente não sabia como Barbie era minha amiga, eu era nerd, ela a dona da festa, que bebia até cair e dormia com todos os caras e até garotas… E eu… e eu… nunca tinha dado sinal verde para ninguém.

Entre frescuras e tabus, eu ainda vivia com meus bichos de pelúcia no quarto. Era fã de Harry Potter e O Senhor dos Anéis… e mais uma lista de coisas vergonhosamente nerds… Ela sempre falava “Nossa amizade é sustentada porque eu quero ser você e você quer ser eu”.

Nunca respondia, porque jamais quis ser ela.

Já lá em cima, interfonei para o segurança do prédio e perguntei se alguma coisa diferente ocorrera à tarde. Se alguém, fora Barbie, havia me procurado, no entanto:

“Dona Savana, foi tudo normal e ninguém a procurou”.

 

“Como? Como ele fez isso?”

E foi essa pergunta que me arrancou de casa…

… E me jogou numa boate barulhenta, onde as pessoas pulavam loucamente ao som de um remix de “The boy with the thorn in his side”, do The Smiths.

— Que merda fizeram com The Smiths? Por favor, me segura, vou ter outro choque anafilático! — Eu gritava no ouvido de Rob, enquanto ele segurava meu rosto tentando entender.

Barbie, no bar, esperava por mais duas tequilas, e nos olhava como se dissesse: “eu não disse que ele te ama”.

— Rá! — Rob soltou uma gargalhada no meu ouvido. — Cara… Você é muito mórbida!

 

Eu sentia, no centro do meu peito, que onde eu estivesse Dante iria me achar.

A cada dez minutos eu fazia uma varredura completa no salão da boate, procurando por um indício de que meu sexto sentido não era furado.

Eu queria vê-lo, porque precisava mais daquela vibe “loka” que ele me causava. Mas as tequilas começavam a me deixar zonza e letárgica.

— Vou sentar — falei para Barbie e Rob, que dançavam com outros colegas dela. — Não se preocupem, vou ficar numa mesa aqui perto.

Eles acenaram sim com a cabeça. Procurei um local onde pudesse descansar, porém, todas as mesas estavam ocupadas…

Comecei a me dar conta de como era insano acreditar que ele estaria ali, numa boate lotada e em início de madrugada e ainda para me ver.

Mas quando olhei para o fundo da boate, um homem sozinho, numa mesa com algumas garrafas, camuflado na sombra, me observava.

Gelei.

Seus olhos brilhavam como dois faróis azuis e incandescentes.

Fui em sua direção, pisando forte.

Não era mais o homem de terno preto, mas sim um jovem, de camisa polo, de cabelo penteado para trás, deixando bem visível todo o formato de seu rosto, quadrado e angelical, masculino na medida certa. Mas eu não queria ceder àquele tratado de poder físico e psicológico, queria apenas dar uma espiada na fechadura.

— Você invadiu meu prédio! — Esbravejei alto, batendo com o copo de tequila na mesa. Eu só podia estar muito bêbada mesmo.

— Você recusou meu cheque! — Quando ele falou, seus olhos quase apagaram com uma dilatação brusca da pupila. — Por quê?

— Você está me seguindo?

— Você quer ser seguida!

— Não é tão óbvio assim… Você não vai me entender! Eu não sou um carro que você conserta sorrateiramente!

Seus dedos giravam o copo na mesa à medida que eu falava, enquanto seus olhos percorriam meu corpo.

Eu usava uma camiseta rasgada, caída no ombro e um jeans surrado. Meu cabelo longo, negro, grudava no meu pescoço, no meu dorso suado… E ele olhava sem parar, enquanto suas pupilas dilatavam como pela manhã.

Então ele estendeu a mão livre até minha calça e me puxou. Eu me arrepiei.

Arranquei as minhas luvas instintivamente.

Montei sobre ele.

Segurei seu rosto.

Sua dilatação de pupila tornou sua íris negra por completo, ele me olhava intensamente, um olhar extremamente confuso, uma confusão que eu não conseguia decifrar.

Ele pressionou suas mãos nas minhas costas, empurrando meu corpo em sua direção, e nossos lábios se tocaram.

Não era um beijo, era uma fusão.

Nenhum de nós fez mais nenhum movimento.

Eu ofeguei, tentando me manter consciente e não desmaiar.

Tocá-lo era ver o mundo.

Ver o que existia de mais grandioso. Nada na minha vida tinha tido qualquer relevância comparado àquilo. Eu havia nascido para tocá-lo.

Sua mão correu a mesa jogando parte das garrafas no chão. Ele me elevou, deitando meu corpo sobre ela. A música alta vibrava no meu cérebro… Walk, do Foo Fighters.

Suas mãos prenderam, com firmeza, meus dois braços:

— O que eu quero de você? — Perguntou, quase como uma retórica.

— O que quer de mim? — Devolvi sua pergunta usando seu mesmo tom. Mas sem entender o porquê daquilo ter sido dito num momento de tamanha intensidade.

Ele se curvou, sua mandíbula tocou meu pescoço, depois seus lábios…

A princípio era um beijo suave, morno, naquela região sensível que leva até a nuca, mas depois ele sugou minha carne com uma força maior e eu senti o quanto sua língua era quente.

Ele parou.

Sua pupila se retraiu e seus olhos tornaram-se azuis novamente.

A força do seu toque foi diminuindo, até ele se afastar por completo e sair.

Sumir.

Continuei lá deitada sobre o álcool e alguns guardanapos.

— Savana?! — Rob e Barbie estavam confusos.

— Quem era aquela cara, Savana? O que aconteceu aqui? — Barbie interrogou, ajudando-me a levantar da mesa.

— Dante… Dante Alighieri. — Respondi confusa.

— Savana ele é lindo… Ele é o que “há”!

— Quem é Dante? — Rob questionou num tom de condenação e um olhar de desprezo dirigido a mim que nunca vi nele.

— Quero ir pra casa. — Apanhei minhas luvas e coloquei-as, fechando meu semblante como o céu em dia de tempestade.