Íris de ácido cáustico



O mundo está escuro e parece morto.

Feras e serpentes se escondem nas trevas…

Então tu apareces no horizonte…

e a terra fica em festa.

(Hino ao Sol, Aquenaton)

               

 

Dormir por dois dias não foi normal e o meu corpo parecia cansado, minha mente deslocada, como se existisse num tempo diferente da realidade. Em casa as coisas se tornaram menos assustadoras, já que pude ficar sozinha e mergulhar naquele mundo pavorosamente mágico.

Era meu segundo dia em casa. Mamãe não queria ir trabalhar para me fazer companhia, mas insisti que ela fosse, afirmando, várias vezes, que estava bem.

Passava das dez da manhã. Estava sozinha, sentada à mesa, olhando minha xícara de café pela metade e o resto de pão, minhas mãos estavam cruzadas sobre minhas pernas.

Nada flutuava no ar.

Era engraçado como às vezes não tinha imagem nenhuma. E eu chegava até a acreditar que elas haviam sumido.

Toquei a asa da xícara, levando-a até a boca. As imagens já permeavam toda a cozinha.

Suspirei, levando as duas mãos ao rosto.

As lágrimas escorriam pelas minhas bochechas, pude ver através dos meus dedos, que não havia mais imagem nenhuma…

— Mas como? “Elas estavam aqui há segundos? — Gritei.

Levantei e andei pela cozinha. Nada. Tinha que existir uma lógica mínima naquela maldita insanidade!

Corri até a xícara e toquei sua asa.

Explosão.

Soltei-a.

Nada.

“Rá!” — Minha risada ecoou pela casa.

“É isso, o tato!”.

As imagens só existiam quando tocava em algo!

“Eureca!”

No resto do dia fui confirmando minha hipótese, então, comecei a colocar as mãos nos bolsos. Sempre que podia eu as escondia.

Fiquei em casa por três dias e mesmo sem remédios, as visões continuavam… Mas falar para mamãe seria como me colocar no rol dos esquizofrênicos.

Contudo havia uma certeza, cada coisa tinha sua sequência de imagens, mesmo que elas não fizessem sentido nenhum.

No dia de voltar à faculdade enquanto tateava a pia, a escova de dente despencou no chão do banheiro, quando abaixei, a toalha de banho caiu e apanhei a escova segurando-a com a toalha…

E nada.

Não vi nada. Era como se o tecido fosse um isolante.

“É isso! Luvas!” — Como não pensei antes?

Corri até meu guarda-roupa. Eu tinha umas luvas transparentes perdidas do Halloween passado. Coloquei-as e… Imagem nenhuma!

Yes!

Até conseguir racionalizar e resolver o problema, as luvas iam ser de bom tamanho.

Toda a rotina voltou. Mamãe falando das bombinhas, elevador lotado, Barbie me pedindo carona…

— Não Barbie, por favor, hoje não rola! Eu estou no trânsito, sabia que posso ser multada por…

A avenida cheia de carros e o semáforo abrindo para mim. Quando, do nada, um carro preto com vidros completamente escuros me cortou, se chocando com a minha dianteira.

— Ahhhh… — berrei assustada.

Por vários segundos fiquei ali.

Parada.

Imóvel.

Meu carro com a frente esmagada. Olhei meu corpo, procurei sangue ou algum ferimento,

“Nada!”

Tirei o cinto, abri a porta e fui até o outro carro ver se alguém tinha se machucado…

Os vidros continuavam fechados. Não conseguia ver por dentro. Só ouvi dois carros “cantando pneus” próximos, uns homens grandões, armados, saíram e se posicionaram em volta de mim:

— Afasta do carro! — Um deles berrou.

— Espera, deixa ver se entendi bem: esse carro avança o sinal, quem está aí quase me mata e se mata… e vocês mandam EU me afastar? — Berrei no mesmo tom do grandalhão, tentando esconder minhas mãos que tremiam freneticamente. Eu estava em choque pela batida.

A porta do motorista se abriu lentamente. Vi uma mão para fora fazer um movimento de giro e os grandões se afastaram. Um homem saiu do carro e virou-se na minha direção.

“Quem é você? Eu acho que já o vi? Ou não…?”

Ele me olhou, mas eu não podia ver seus olhos por causa dos óculos escuros.

— Hum… Ahm…

Tentei falar algo ou me mover, contudo só conseguia, absurdamente, admirá-lo. O seu rosto era de uma beleza completamente atípica, uma combinação fora do comum.

A pele muito branca, o cabelo liso, loiro claro, caído pela testa e tomando parte do rosto, seu corpo era esguio e alto, devia ter mais de 1,90m de altura.

Eu poderia falar com precisão que aquele era o homem mais bonito que havia visto na vida, incluindo os dos filmes e os dos encartes de moda da Barbie.

E ele se vestia com a mesma exuberância do seu biótipo. Seu paletó era de um tecido fosco que ganhava um tom ousado ao Sol. Suas mangas estavam arregaçadas como se ele as tivesse puxado há pouco tempo. Ele não usava gravata, apenas uma camisa branca, sob o paletó, com os dois primeiros botões abertos mostrando parte do peito liso e uma corrente de prata com um pingente de pássaro.

Minha apatia e falta de ação o incomodou… Eu podia ver seus lábios tremendo, mostrando parte dos dentes superiores.

Ele queria me fuzilar:

— O estrago não foi grande, foi?

Olhei para o carro dele e meu estômago embrulhou, era uma BMW, aquele carro deveria valer meio milhão…

Ele tirou os óculos. Acomodando-os na parte superior da testa, deixando amostra o que ele tinha de mais enigmático…

Os olhos.

Eles eram arqueados, quase como uma meia lua na parte superior, retos na inferior, os cílios volumosos e a cor… da íris…

Azul.

Um azul uniforme. O universo todo pareceu parar. Eu não via nem ouvia mais nada, só conseguia me concentrar nos seus olhos.

“Azul, mas como azul?”

Será que tive algum traumatismo com o acidente?

Porque desde o hospital eu não conseguia ver a cor azul.

— Esse carro vale mais do que todo o dinheiro que vai ganhar em sua vida — suas palavras me estarreceram — mas hoje é seu dia de sorte, a culpa foi minha — falava enquanto me olhava de cima a baixo. E depois mantendo a visão na direção de minhas luvas.

Ele queria me jogar na lata do lixo.

Eu era só uma garota de jeans desbotado, t-shirt dos Beatles que papai me deu no meu aniversário de dezessete, que dizia na frente “All You Need is Love” e uma sapatilha velha.

Nós estávamos em lados opostos.

Sua mão desceu até o bolso, tirou um cartão de visita e me entregou — Pegue! As avarias não foram tão grandes, ainda dá para rodar por aí com ele. Vá amanhã nesse endereço e acertamos os estragos! — Falou categoricamente, abaixando-se e entrando novamente no carro.

E antes que eu pudesse reclamar, espernear, mandar à merda, ele já tinha ido embora e todos os carros em volta buzinavam me mandando sair. Entrei no meu carro, amassei o maldito cartão e o joguei no banco ao lado, arrancando dali.

“Maldito! Maldito!”

Gritei, esbravejando de ódio por não tê-lo mandado para o inferno! Por ele ter me feito sentir uma maluca deslumbrada com sua beleza. E todos os sinais passaram a ficar vermelhos e o ar-condicionado não funcionava.

Comecei a ofegar. E não lembrava onde tinha colocado minhas bombinhas.

O pior era que quando sentia emoções muito fortes, começava a chorar. Eu era uma chorona nível master. As lágrimas começaram a escorrer pelo meu rosto…

Bati com toda a força no volante: “Maldito!”

Aquilo tudo não foi o bastante, porque quando cheguei à faculdade todos me olhavam e cochichavam. Eu devia ser o assunto da semana depois do choque anafilático que tive.

De cabeça baixa, segui até a sala.

Rob guardava meu lugar. — Oi Savana! — Ele sorriu. — Tudo bem?

A aula não tinha começado ainda. O professor, como sempre, atrasado. Virei-me para meu amigo depois de sentar com toda a força na cadeira.

— Não! Não está tudo bem! Bati o carro, não sei onde coloquei minhas bombinhas, todo mundo está me olhando… e ainda tem as… — brequei e pensei: bom essa parte era demais para ele entender —… as minhas luvas que estão coçando!

— Mas foi grave a batida? Por que você está de luvas?

— Para evitar alergia — falei tentando disfarçar o absurdo.

— Aham… — balbuciou sem entender, mas antes que pudesse perguntar mais alguma coisa, o professor Friedrich, o esquisitão, o que tinha me levado ao hospital, entrou e deu início a aula.

Precisava agradecer-lhe, e também sondar a história de mamãe sobre a parede azul… quanto à estranheza, ah… Isso ele sempre foi.

— Instinto? — Sua fala se confundia com seu barulho de acomodar os livros na mesa. — Alguém arrisca uma síntese? — Contrariando suas aulas-monólogos, tentava instigar os alunos. Nós nos entreolhamos sem ter certeza se era realmente sério ou uma piada “nível Friedrich”. Ele apontou na minha direção — Quer arriscar… Savana?

Não podia acreditar que aquela pergunta era para mim e num dia como aquele. Comecei a tremer frente a todos os olhares inquisidores, meu rosto pinicava, devia estar da cor de um tomate maduro. Não tinha vergonha de falar em público quando estava preparada, mas pega assim de surpresa, fiquei envergonhada.

Friedrich abriu um leve sorriso — obrigada pela explicação, Savana, tão objetiva e prática… de uma reação instintiva!

Todos começaram a rir. Eu tentei ficar séria, mas a situação era absurda e constrangedora, a única coisa que podia fazer era rir também.

Ele continuou, sem mais sorrisos — alguns acreditam que o instinto surgiu através de ações e comportamentos repetitivos que aos poucos se tornaram mecânicos. É válido? — Ele perguntou num tom retórico conhecido e respirei aliviada. — Sim, é! Em alguns casos, mas em sua essência mais maravilhosa está muito além de qualquer ato de aprendizagem. Poderíamos até chamá-lo de “mágica”.

Ele se movimentou em passos largos pela sala, observou a janela — cada flor de iúca floresce apenas uma única vez. A mariposa tira o pólen, transforma-o numa bolinha, procura uma segunda flor, arranca-lhe o ovário e deposita o pólen pela fresta. É um ato instintivo. — Ele estava de frente para todos nós com um semblante apático — o problema é que a mariposa de iúca faz isso só uma vez na vida. Quem lhe ensinou? Que movimentos mecânicos repetitivos lhe permitiram adquirir tal aprendizado? — Friedrich virou-se e, de costas para a turma, olhou o quadro vazio por um bom tempo. — Leiam o texto que indiquei sobre sincronicidade. Por hoje é só — e sinalizou com a mão a saída.

Meus dedos mexiam na costura da luva. Num estado quase catatônico, eu pensava no azul, no fato de não vê-lo mais, no choque anafilático, nas imagens… Nunca tive controle sobre nada na minha vida, me sentia como a mariposa de iúca, uma marionete, manipulada por uma força maior da qual não se tinha notícia ou entendimento.

Quando todos já haviam se retirado, fui falar com Friedrich, enquanto Rob corria cheio de livros para devolver à biblioteca. — Você não vem?

— Te alcanço depois. — Ele seguiu pela porta fazendo um gesto negativo com a cabeça sem acreditar que eu me dirigia a Friedrich.

— Obrigada, professor, por me ajudar com meu… meu… — me embaralhei nas palavras…

— Não se preocupe. Eu teria feito o mesmo por qualquer pessoa e acredito que você teria feito por mim também — olhou bem fundo nos meus olhos como se procurasse algo, então apontou minhas mãos — de luvas, Savana?

— Sim… é… para evitar contato com poeira, ácaros…

— As luvas não vão lhe proteger por muito tempo — falou recolhendo seus livros.

— E o que vai me proteger? — Falei quase como reação, sem pensar.

Ele sorriu de canto, como se soubesse algo que não sei, como sempre fazia no meio dos assuntos mais pseudos… Mas não confiava nele ou em ninguém o suficiente para falar sobre as imagens, não ainda.

— Evite objetos de ferro e a cor azul… e cuide-se! Realmente cuide-se! — Falou como quem prescreve uma receita médica, como se seu comentário pudesse fazer algum sentido e foi saindo da sala.

— Como assim? O que você sabe?

Mas ele não respondeu, nem sequer se virou para trás.

Quando ele saiu lembrei novamente dos olhos do cara do acidente, eram azuis e eu os vi.

“Mas não estou vendo o azul?!”

Sentei na cadeira do professor, coloquei minha testa na mesa, tive vontade de gritar. Desde o choque anafilático toda a vez que olhava o céu via um espelho gigante, refletindo cada maldito detalhe, de tudo que existia na terra.

Eu não via mais a cor azul. Ela se tornou espelhos… Como numa acusação fatídica de que tudo era muito mais do que aparentava ou que eu era louca…

“Ele sabe.” — Murmurei.

“Friedrich sabe alguma coisa. Sabe o que eu apenas consigo perceber sem entendimento nenhum.”

Tentei respirar compassadamente.

Há alguns dias meu maior medo era reprovar em alguma disciplina, era não conseguir o emprego dos meus sonhos, nunca ter filhos ou casar…

Minha vida era da faculdade para casa, cinema, às vezes, e visitas às livrarias. Os dias eram maravilhosamente monótonos… e eu amava a completa falta de emoção, de preocupação.

Nunca fui perita em lidar com mudanças e surpresas. Meus amigos íntimos sabiam que se fizessem uma festa surpresa correriam o risco de cantar parabéns sem a aniversariante.

Previsibilidade era meu nome, será que ainda era? Ou eu estou enlouquecendo? Ou era um pesadelo?

“O cartão!” — Lembrei-me do contato deixado pelo homem dos olhos azuis. Levantei e segui para o carro.

No banco dianteiro, amassado, formando uma pequena bola, o cartão de visita e no centro do pedaço de papel em letras serifadas e garrafais:

Dante Alighieri

“É uma piada?”

Não consegui conter meu riso, enquanto balançava a cabeça. “Quem tem um nome assim no século XXI?!”

Corri para a sala, abri meu notebook, e joguei o Alighieri no Google. Para minha surpresa dava para fazer até download da Divina Comédia:

“Que piada! O cara não existe! Bom, existe, mas viveu há séculos… Vou jogar azul no Google… espelho?”

— Ei, garota, te esperei um tempão! — Rob veio se aproximando.

— Rob… — o encarei — e se nada fosse o que aparenta ser?

Ele falou em tom de desdém — querida, os irmãos Wachowski já fizeram esse filme!

— É sério!

— Tem algo de diferente com você, Savana. Você costumava ser leve.  Mesmo dando tudo errado, você estava se lixando. Mas agora — ele respirou, tentando conter as palavras — você parece uma paranoica! Desculpa por falar assim logo depois desse acontecimento chato…

Se ele já me achava paranoica… imagina se eu falasse do Festival de Cinema de Veneza! E que minhas luvas eram como breaks nas sessões… Ele iria me internar, mandar direto para o sanatório, como bom estudante de psicologia que era!

— Vou pra casa! — Levantei-me e fui recolhendo minhas coisas.

— Calma, não precisa sair correndo! Eu fui um chato…

— Sem estresse, só não estou me sentindo bem. — Tentei disfarçar meu desapontamento, queria compreensão e aceitação.

Será que aquilo tudo era paranoia? E se eu estivesse passando por um surto psicótico? Um dos meus professores, no primeiro semestre, fez uma lista de alguns dos sintomas de um surto desse tipo, e quando comecei a contar mentalmente os poucos que lembrava, entrei em desespero.

— Preciso ir. — Coloquei a mochila nas costas e me despedi com aquele tchauzinho distante de: não chega perto de mim.

O calor fazia minhas mãos suarem dentro das luvas. Tirei-as, guardei no bolso de traz da calça.

“Se é pra estar no inferno, então vamos dançar com o capeta!”

Explicar a mamãe o porquê daquele carro amassado ia ser a pior coisa que teria que fazer no dia. Pior até que uma possível conclusão de psicose. E se ela quisesse me acompanhar quando eu fosse falar com ele? … Que horror! Iria me sentir uma criança de três anos.

Precisava resolver aquilo rápido. Uma força irracional me forçava a querer olhá-lo de novo… e de novo… nos olhos.

Por que será que aquela foi a única cor azul que vi em dias?

“Evite o azul, evite ferro? Blééérrrr…”

Fui até o banheiro, lavei o rosto, penteei meus cabelos longos e negros, me encarei no espelho: de preto para preto. Em meio a todas as outras imagens que ziguezagueavam pelo ar, pude ver um girassol, até senti seu cheiro.

Suspirei e saí.

O endereço no cartão era de uma torre comercial de nome Wild Eagles Tower, num bairro nobre da cidade. E era para lá que eu iria.

O prédio era um tratado de arquitetura moderna, clean, belíssimo, fálico…

Na entrada detector de metais, leitor de digitais e segurança armada. Passei por ela como um boneco de pano criminoso, sendo sacudida e scanneada. Muito constrangedor.

Andei até a recepção:

— Oi, bom dia?

— Bom dia. Posso ajudá-la? — Respondeu a recepcionista me olhando de cima a baixo.

Devia ter ido em casa, me trocado, mas minha mãe poderia ficar sabendo. E eu precisava resolver aquilo logo! Não poderia correr riscos, depois dos últimos acontecimentos era bem capaz dela me obrigar a ir para a faculdade de transporte escolar, ou pior, querer ir novamente me deixar todo dia.

A verdade era que não adiantava que desculpa inventasse, eu queria mesmo era estar perto daquele homem, olhá-lo… e numa urgência incontrolável.

— Sim, pode, preciso falar com Dante Alighieri — e que nome de pronúncia ridícula. — Posso subir direto ou tem que avisar daqui…?

O semblante dela mudou da água para o vinho: — Querida, não creio que Sr. Dante vá receber ninguém.

— Ah, vai sim, ele quase me mata hoje de manhã! Bateu no meu carro, praticamente fugiu do local do acidente… Se você não me deixar subir, vou chamar a polícia!

— O senhor Dante é muito reservado. Não creio que vá precisar expô-lo e se expor assim. — Falou, dando as costas e pegando o telefone.

Não sei de onde tirei coragem para falar tudo aquilo, mas funcionou…

Minutos depois, com uma fisionomia de contra gosto:

— Pode subir. Segundo elevador à esquerda. O para números ímpares.

— É… Tem o andar e a sala no cartão — falei lendo o pequeno pedaço de papel retangular, amassado. — Décimo sétimo andar, sala vinte dois.

Segui na direção indicada, apertei o botão do elevador e a explosão de imagens foi inebriante. Com ferro era sempre assim.

Esperei com mais algumas pessoas, que me olhavam enviesado. Realmente eu não estava vestida para aquele ambiente.

Décimo sétimo andar.

Saí do elevador.

Ninguém.

Olhei para um lado, para o outro… só o silêncio e o frio. Aquela temperatura deveria ser menor que dez graus…

Caminhei.

A sala ficava no fim do largo corredor. Câmeras em toda parte me incomodavam, não conseguia nem levantar o rosto.

“Acho que não devia ter vindo”. — A tremedeira de um medo súbito se misturava com a do frio intenso.

Não havia ninguém. Todas as salas estavam vazias.

No final do corredor tinha uma sala com uma grande porta de vidro e apenas uma mesa de um tom negro no centro.

Um homem sentado, imponente, me olhou de maneira fulminante. Aquele mesmo olhar de desprezo.

Ele trazia em seus olhos o azul que eu não podia mais ver em nenhum outro local. Enigmático. De pele extremamente branca, contrastando com todo aquele ambiente metálico e escuro.

 

Abaixei a cabeça e, antes que pudesse me movimentar, a porta de vidro abriu-se. Devia ter sensor de presença.

Fiquei parada como uma criança, olhando para o chão, sem saber qual meu lugar no mundo. Sem saber por que tinha ido até ali.

Levantei o rosto e olhei para ele novamente, não tinha se movido um centímetro, então entrei, caminhei sem pensar em nada até a mesa. E não, não tinha cadeiras para visitas.

— Bom dia. — Estendi minha mão em sua direção.

Ele levantou e me olhou novamente da cabeça aos pés, como fez pela manhã, sem me cumprimentar. — Onde estão suas luvas?

— Como?

— Pela manhã você usava luvas, agora não usa mais, por quê?

Aquele homem tinha quase me matado hoje de manhã e a primeira pergunta que me fazia era por que eu tinha tirado as luvas?

— É sério? Você fugiu do local do acidente e só me deixou isto — esbravejei, jogando o cartão de visita na mesa — e quer saber por que estou sem luvas? Eu quero saber como resolvemos isso, porque não quero ter que explicar nada para minha mãe! — Me senti uma criança.

Ele sorriu de canto e jogou o cabelo de um jeito que deixou seus dois olhos azuis à mostra.

— O carro era novo?

— Sim!

— Quanto foi?

— Aham… Não lembro bem, acho que trinta mil.

Suas mãos desceram até a gaveta da mesa. Ele a abriu, tirou um talão de cheque, preencheu e me entregou.

— Cinquenta mil? — Olhei-o com desdém.

— Os quinze mil são pelo transtorno. E antes que fale, sim, ele tem fundos! Não sei se você percebeu, mas não tem outras pessoas nesse andar, você sabe por quê?

“Porque você é muito arrogante, seu bosta?!” — Não.

— Por que ele é todo meu. Todas as salas… E você vê esses vidros? — Falou abrindo os braços, girando e indo na direção das janelas de vidro, que tinham vista para o mar. — Venha até aqui — ordenou num tom que não dava para recusar, pelo modo firme de falar. Devia ser acostumado a ter as pessoas lhe servindo e fazendo as suas vontades.

Andei calmamente seguindo seus passos em direção à vista. Parei ao seu lado.

— São todos blindados!

Olhei o horizonte e a paisagem era fantástica, a junção de dois espelhos, o céu e o mar.

Toquei a superfície do vidro com a mão esquerda, queria segurar aquela imensidão.

Dante fez o mesmo.

Mas quando os dedos da sua mão direita tocaram o vidro senti uma sensação de…

Êxtase.

Vi o universo inteiro e todas as suas ligações, de uma luz inicial até a natureza como se encontra hoje, dá forma mais simples até a mais complexa, cada detalhe numa tela só.

Tirei rápido a mão e todo meu corpo se arrepiou num calafrio intenso, como um gato quando se depara com um cachorro.

Se Deus existia, ou se uma força grandiosa pudesse existir no mundo, era aquilo.

Mas era mesquinha, esnobe, egocêntrica, senhora da verdade e de si… a natureza só tinha como fim ela mesma e seus resultados. Nós éramos apenas peões, fracos, manipuláveis… E esse pensamento veio como entendimento súbito e prematuro.

Ele tinha algo escondido. Eu não conseguia ver o que era, mas era aterrorizante.

— Preciso ir… — murmurei baixinho, tentando me equilibrar, colocar meus pensamentos e movimentos no mesmo “timing” novamente.

Seus olhos não desviavam dos meus e suas pupilas dilataram rapidamente, deixando a cor azul quase ofuscada.

— Quantos anos você tem? — Perguntou intrigado. Ele havia mudado e de alguma forma eu passei a despertar seu interesse.

— Dezoito… e você? — Respondi sem entender o porquê daquela mudança.

— Vinte e seis.

— Com o que trabalha? Como você pode ser jovem assim e tão rico?

Com um sorriso esnobe, recebendo meu comentário como um grande elogio: — quer saber como eu consegui… “eu nunca poupei nada para o caminho de volta.”

— Quer dizer que sempre dá o máximo de si, em tudo, é isso?

— Sim, é. Rá!

Ele deu uma risada, o que me deixou ainda mais constrangida. Depois foi diminuindo o tom até ficar sério.

— Perdi meus pais com quatro anos. Estudei num colégio interno dos doze aos dezesseis. Quando fiz dezoito, me tornei dono do patrimônio do meu pai, investi metade em ações e tripliquei o valor do espólio em menos de um ano. Então, fui para os Estados Unidos e me formei em administração no MIT, depois voltei, abri uma empresa de investimento financeiro a W&E, que tem uma sede e três filiais.

Falou como num seminário, com voz firme e uma paixão sobre si difícil de encontrar.

Quando me ocorreu… W&E… onde ouvi esse nome?

— Sinto muito pelos seus pais… e fico feliz pelo resto. — Parabenizei-o, ajeitando minha postura e olhando para a saída, mas eu não queria ir, queria grudar nele e morrer. Meu corpo todo convergia na direção dele — preciso ir, Dante Alighieri.

— Não me chame assim, eu não gosto! — Sua voz mudou de tom e ele voltou a agir predatoriamente como quando entrei. — Me chame de Dante.

— E você? — Perguntou, quase com desdém. — Como foram seus dezoito anos?

— Eu… eu… — pensei em todos meus tropeços, nas minhas limitações, nas crises asmáticas, na infância precária e adoentada, que havia me jogado num cárcere. Em como nunca tinha conseguido lidar com coisas simples e nos anos de terapia… E, por último, naquela loucura na qual havia mergulhado e que me deixava incerta sobre minha própria sanidade — moro com meus pais e curso Psicologia. — Claro que não mencionei nada.

Sua cabeça virou para a esquerda levemente, com um riso desdenhoso.

— A natureza sabe o que faz.

— Como assim?

— O acaso não existe. — Professou.

Será que era isso? A natureza queria me mostrar a minha insignificância? Queria que eu soubesse dela, ou o quanto a minha preocupação em compreender a mim e os outros era banal e desnecessária? Ou que eu era como um erro, como uma falha?

Seus dedos corriam entre seus cabelos. Sem entender seus diálogos, eu transitava entre a vontade de fugir dali e de tocá-lo.

— Tenho que ir…

— Por quê? — Num tom de incerteza ou reação? Não fazia sentido, como aquele homem que me olhava com desprezo parecia querer que eu não fosse embora.

Sorri timidamente — está na minha hora… não é nada pessoal com você. — O que poderia soar como “é algo pessoal contra você”.

— Tudo é pessoal! — Ele falou como se soubesse de todas as verdades do mundo.

— Nem tudo! — Tentei ser firme, mas, no fundo do meu peito uma incredulidade me pegou de surpresa. Jamais tinha pensado de forma tão racional e consciente numa afirmação.

— Tudo é pessoal! — Ele repetiu.

— Adeus.

Segui em direção à saída cheia de um sentimento novo e assustador, então, quando a porta se abriu…

Virei.

Olhei para ele.

Levantei o cheque, o parti em dois pedaços e o joguei no chão.

Eu não podia ficar com ele, porque tudo naquele ínfimo pedaço de papel me fazia ter visões de…

Imagens de ferro.

Não um pedaço de ferro polido e redondo, mas um ferro universal, e os outros papéis não tinham esse tipo de “visão”.

Seus olhos fraquejaram pela primeira vez desde que o vi, numa espécie de piscada e procuraram o chão.

Saí sem ele me fitar novamente.

Minhas pernas não queriam obedecer, mas tentei andar até os elevadores o mais rápido que pude. O frio não ajudava.

Tremer. Andar. Sentir medo… não me ajudavam a ser rápida.

Queria sair o mais rápido possível daquele andar…

Apertei o botão do elevador com força e repetidamente. Quando ele chegou, a voz feminina e mecânica que anunciava o andar se confundiu com um grito grave e desesperado que se propagou pelos corredores.

Minha espinha gelou e meu corpo se arrepiou. Eu queria evaporar dali!

Não tinha certeza se o grito era verdadeiro ou uma ilusão audível. Além de ver imagens flutuando também estava ouvindo coisas?

Mas de uma coisa eu tinha certeza: o grito não era de Dante! Ou melhor, eu esperava que não fosse.