O senhor dos dois mundos



“A morte não é o contrário da vida. A morte é o contrário do nascimento. A vida não tem contrários”

(Autor desconhecido)

 

As imagens não desapareceram, elas foram se tornando mais misteriosas. Não era normal aquela condição, e a cada dia elas afirmavam com veemência:

“Não vamos desaparecer, como fez seu Deus Grego!”.

As pessoas não ignoravam minhas luvas. Lidar com isso era perturbador e minha mãe começava a me pressionar para tirá-las.

As imagens queriam ser vistas e me puxavam de vez em quando para um apagão total. Era certo, se eu ficasse muito tempo sem as luvas enlouqueceria…

Então decidi que era hora de fazer algo a respeito.

Eu não podia ficar inerte me vendo enlouquecer daquela forma.

Pedir ajuda seria aceitável e Friedrich era a possibilidade que se encaixava no “perfil”, mas antes eu precisava pesquisar sobre o assunto, tentar encontrar alguma pista.

Mais uma semana daquele jeito e eu terminaria num hospício de quinta, como Jack Nicholson em Um Estranho no Ninho. É, fomos obrigados a fazer um trabalho sobre esse filme no primeiro semestre e desde então passou a ser o filme favorito de Rob, mas não o meu.

Primeiro, eu tentaria encontra alguma resposta e, segundo, dependendo do resultado, procuraria Friedrich.

Peguei um lápis e anotei o meu estado:

  • Choque anafilático. (Fato gerador).

Estado pós-choque:

  1. Visões com traços de esquizofrenia.
  2. Visões ocasionadas pelo contato do tato com objetos. (Já que com as luvas eu não via nada).
  3. O tempo dos meus pensamentos pareciam mais rápido que o normal.
  4. Não via o azul. O que via agora no seu lugar são espelhos (tipo um daltonismo torto).
  5. Minha obsessão por Dante. (hiperdoentia… ;’x)
  6. Retomada de pesadelos com pássaros que tinha na infância.
  7. E, infelizmente, as crises asmáticas continuam.

 

Listar os fatos me fez perceber melhor meu estado. Eu poderia estar louca, mas pelo menos ainda conseguia racionalizar.

Joguei-me na cama, relendo o papel.  Olhei as horas no celular e ainda eram oito e meia da manhã. A biblioteca da universidade abre até às duas horas aos sábados, então resolvi ir até lá.

Não haviam tantos alunos como pensei que encontraria.

Munida da minha lista “básica” de sintomas, olhava as estantes longas e pensava que livros deveria pegar.

Quais seriam relevantes?

Peguei um manual para estudantes de psiquiatria sobre distúrbios psiquiátricos e olhei o índice me apoiando na prateleira da estante.

Os livros eram organizados por assunto e ordem alfabética de títulos, o que facilitava bastante a vida de alunos preguiçosos como eu.

“Sintomas de esquizofrenia…” bem, vejamos… “A maior parte dos casos era em homens. Os sintomas começavam por volta do fim da adolescência e início da idade adulta”. Poderia ser esquizofrenia.

Fato.

Mas não ver o azul era muito pontual, geralmente esses tipos de distúrbios não são tão lógicos de retirar uma cor em específico da mente de alguém.

Descartado.

Caminhei novamente pelo corredor. A busca agora era por um livro que falasse das cores.

Encontrei um que o autor tinha um nome estranho, Beresniak. Lendo as primeiras páginas, descobri que as cores têm uma função psicológica, e o azul, em particular, estava na quinta posição no arco-íris. Ele dava a ideia de paz, harmonia, limpeza, sucesso e produtividade.

Que pseudo!

Lembrei que quando criança tinha uma obsessão pelo azul do céu. Eu ficava horas olhando aquela cor, perdida, e me sentia infinita, como se fizesse parte de todos os tempos, de todas as histórias, de tudo…

Se eu só via o azul nos olhos de Dante, então só tinha aquelas sensações quando o via, por isso que olhá-lo era tão intenso e viciante.

Seria uma espécie de alívio de tensão?

Sentei numa das mesas reservadas à leitura, abri meu notebook e chequei e-mail. Fiquei com a tela inicial do Google aberta, com uma sensação de que tinha algo para pesquisar, mas não sabia o que era.

Peguei o celular e liguei para Rob. No terceiro toque, caiu. Seria possível Rob não ter atendido? Desde o dia da boate ele agia estranho.

Olhei para as estantes cheias de livros. Um dos meus colegas de classe, o Keiko, estava procurando algo. Fui até ele na intenção de lhe dar um oi e oferecer ajuda. Com Rob diferente comigo, minha cota de amigos beirava a zero. Keiko parecia confuso, olhando um exemplar de capa vermelha.

— Quer ajuda? — Ofereci-me.

Ele se afastou.

Keiko era um pouco maior que eu e possuía aquele biótipo tipicamente japonês. — Não precisa! — uma careta involuntária se formou no seu rosto, ele parecia com nojo de mim.

— Tudo bem! — Me afastei, voltando para a mesa.

Comecei a recolher minhas coisas para ir embora, porém, a imagem do rosto dele me olhando não saia da minha cabeça, foi humilhante. Devia ser vista como uma aberração…

Mesmo sem ser uma relação íntima, ele sempre foi educado comigo. O engraçado era que a repulsa que ele demonstrou pareceu com a repulsa de Rob nos últimos dias.

Suspirei.

Eu tinha muitos problemas, esse iria deixar passar.

Na porta de saída, escutei duas garotas conversarem empolgadas:

—… li sim, gosto dessas obras de literatura medieval, desse tom meio dark, mas que oferece uma reflexão aprofundada sobre as estruturas sociais.

— Achei a leitura difícil — a outra respondeu, fazendo uma expressão de susto. — Dante Alighieri não é mesmo para todo tipo de pessoa. É meio que para um grupo seleto.

Eu ainda nem sequer folheei a obra, mesmo sabendo que Dante tinha o nome de “Dante”, não acreditava que tivesse uma ligação.

Aquela conversa havia despertado uma vontade de saber mais.

Voltei rapidamente para dentro da biblioteca e procurei A Divina Comédia. Peguei um exemplar, passei as páginas, li alguns trechos e não consegui entender nada.

Nheca! É horrível!”.

Sentei numa mesas e já passava das doze, agora eu me encontrava sozinha na biblioteca.

Abri meu notebook novamente e procurei por críticas ao livro. Uma delas falava que Dante descreveu o céu, o purgatório e o inferno como níveis que eram representados por círculos concêntricos de diferentes tamanhos.

“Círculos concêntricos?”

Abri meu caderno e olhei os mais de “trocentos” círculos concêntricos que desenhei nos últimos meses, e mais intensamente nas últimas semanas.

— Já é quase duas. — Falou o bibliotecário, acordando-me do transe.

— Obrigada, já estou de saída. — Falei, recolhendo meu material da mesa.

Saí da biblioteca com aquela sensação de fracasso.

Entender a mim mesma já era difícil em condições normais, mas agora era completamente impossível.

Não sabia ao certo em que essas informações ajudariam. Era tudo naquele nível metafísico, de Deus, liberdade e a imortalidade… Não sabíamos de onde vieram esses conceitos e nem como explicá-los. Então, na prática, não serviam para nada.

Minha vontade era de gritar até não conseguir mais pensar.

No carro, coloquei Walk, do Foo Foghiters, no volume máximo e ela tocou umas seis vezes até que eu chegasse em casa.

Eu já tinha revirado a biblioteca da universidade, mas não conseguia encontrar o que queria. A solução foi recorrer à biblioteca pública. Então, resolvi visitá-la durante a semana.

— Mas qual o livro em específico, Savana? — Rob moveu um livro e me olhou pela pequena abertura que dava para o corredor que eu percorria.

Trazê-lo não foi uma tarefa fácil, há dias ele me evitava. A repulsa que parecia coisa da minha cabeça, no dia da boate, foi se confirmando nos nossos encontros seguintes.

— Não sei ao certo. — Esse era o problema, eu não sabia o que queria, nem onde procurar.

— Você consegue imaginar quantos exemplares existem aqui? E ainda sem saber nem de longe qual a área… Nós só sairemos daqui quando começar a brotar cabelo branco dessa sua cabeça!

— Na minha não! Na sua… eu não quero envelhecer nunca! Eu não quero morrer nunca! — Fantasiei, enquanto me arrastava até uma mesa encostada na parede com algumas cadeiras.

Peguei meu caderninho e olhei a lista que havia feito. Tentei filtrar o que poderia se relacionar com que eu procurava sem ter que falar: “Eu vejo coisas flutuando”.

Rob sentou no lado oposto da mesa:

— E aí, já sabe o que quer?

Suspirei. — Acho que algo que fale de sonhos… sem ser supersticioso…

— Jung? Von Frans?

— É, pode ser… Algo que fale sobre sinais, ou melhor, sobre símbolos, círculos concêntricos em específico.

— Pode ser um dicionário de símbolos?

— Sim, e talvez algo relacionado a predadores. — A ideia de poder da mãe natureza sempre me lembrou cadeia alimentar.

— Charles Darwin? A teoria das espécies?

— Sim, e algo sobre o homem primitivo, sobre mitos, na sua forma mais pura… — como tudo parecia se repetir absurdamente no mundo, a melhor maneira de nós entender era procurar nossas raízes.

Juntamos os exemplares que encontramos na mesa. Se tinha mais de um sobre o mesmo assunto, pegávamos todos. Por um bom tempo nos debruçamos sobre os livros.

Rob, às cegas, sendo guiado pelas minhas dicas loucas e desencontradas e eu apenas com um eixo norteador, mas sem cercas delimitadas.

Já haviam se passado horas. Eu olhava todos aqueles livros espalhados e esperava que um milagre desse as respostas que eu tanto precisava.

— Você é incrível. Obrigada pela ajuda… e desculpa por te fazer perder tempo comigo. — agradeci a Rob.

— Não é perda de tempo… Adoro procurar algo que não sei o que é…

— Besta… — falei num tom de brincadeira.

Seu sorriso se estendeu, deixando seus dentes da frente e suas covinhas à mostra.

Rob folheava a teoria das espécies — Darwin acreditava que os mais adaptados sobreviviam e os menos adaptados eram eliminados… Acho que a maior parte da teoria dele pode ser resumida a isso…

Meu celular tocou:

“Savana, estou perdida! No meio do meu pior pesadelo… estantes cheias de livros!”

            “Calma Barbie, estamos no fundo da biblioteca. Você terá que conseguir sobreviver. É só mergulhar nos corredores… Rá!” — dei uma risada.

            “Engraçadinha!” — Barbie desligou na minha cara.

Rob me encarou, perguntado com os olhos o que era — Barbie veio nos dar uma força. Eu sei que você a adora…

E antes que pudesse falar mais, Barbie se jogou na última cadeira vaga e cruzou os pés sobre a mesa:

— Sou folgada sim!

Rá! — Rimos as duas por um tempo.

Era normal meu derretimento frente aos ataques de excesso de Barbie. Era um tipo de comunicação que tínhamos desde criança, ela ultrapassava a barreira da normalidade e eu vibrava, já que nunca tive esse tipo de coragem.

Rob nos observava atônito, não sabia se pela beleza de Barbie ou pela minha nova faceta desmascarada.

Barbie olhou os livros na mesa e derrubou uma pilha:

— Para quê tantos livros? Se vocês forem ler isso tudo a gente não sai hoje daqui!

— Nós não vamos ler todos… estamos só fazendo uma pesquisa. — Meu amigo respondeu.

— Pesquisando o quê?

Rob me olhou com a testa franzida. — Pergunta a Savana, por que é o que estou tentando descobrir desde que entramos aqui.

— Então nem adianta, Savana é dessas que ou explica algo nos mínimos detalhes ou não explica.

Rob deu um sorriso de deboche.

Barbie começou a arrumar os livros que caíram da pilha. Ela ia juntando cada um lentamente, olhando o título e quando terminou:

— Já sei o que você quer Savana… — Barbie nos dá as costas e sai em direção as estantes.

— Cuidado pra não se afogar! — Falei ironicamente. — Se encontrar mais alguma coisa de Jung e Freud, pode trazer. Eles nunca são demais.

Barbie deu uma gargalhada, tapou o nariz com uma mão e esticou a outra para cima fazendo um movimento ondulado com o corpo, como se estivesse mergulhando. Eu e Rob rimos e ela desapareceu da nossa visão.

Quase meia hora depois minha prima voltou com um livro na mão e o jogou na mesa:

— I-ching.

Eu e meu amigo ficamos em silêncio. E quando parecia que Rob iria falar algo ela continuou…

— Savana me pediu para pegar obras de Jung… Bom, ele escreveu o prefácio dessa. — Tentou, infantilmente, se explicar.             — Eu já consultei, e pode ter certeza, descreve o momento de maneira precisa. — Barbie confessou.

— Aham… — Balbuciei achando aquilo uma loucura.

— Você deveria consultar, Savana. — Barbie sugestionou.

Só pode ser piada mesmo!

— Credo Barbie! Não vou medir minha vida ou minhas decisões por um jogo de sorte! — Justifiquei.

— O prefácio é de Jung. — Rob a apoiou.

— Porque eu tenho respeito pela obra dele não quer dizer que concordo com tudo. — Respondi já irritada.

Barbie pegou três moedas de centavos e me entregou. Depois abriu o livro numa página com combinações de linhas retas e quebradas:

— Formule uma pergunta objetiva sobre o que quer saber, não precisa falar e depois jogue as moedas…

Conhecendo o temperamento insistente de Barbie, era melhor fazer o que mandava. Joguei as moedas por seis vezes. Cada vez que jogava ela anotava algo.

E quando terminou de anotar pela última vez, me encarou sorridente, como uma vidente de quinta:

— O Lu.

Movimentei a cabeça em desdém:

— Sim, o Lu, e daí?

Barbie folheou, virou o livro e me mostrou o que ela intitulava de:

— “Hexagrama”

 

— A conduta… “Lu significa literalmente “pisar sobre algo”. O pequeno e alegre Tui pisa sobre o grande e forte Ch’ien”. — Ela leu um trecho e parou. — Ch’ien é o céu, Tui é o lago. O certo é que o forte caminhe sobre o fraco, mas aqui diz que o contrário não é perigoso.

— Então não devo me preocupar? — Perguntei, sem conseguir me manter indiferente à interpretação.

— Aqui diz que é como se estivesse tendo que lidar com pessoas selvagens… e intratáveis.

No momento que ela mencionou isso só consegui pensar em Dante, e no que senti quando tocamos o vidro do seu escritório ao mesmo tempo. A palavra correta para descrever aquela sensação seria: selvageria.

Barbie continuou:

— O que rege esse hexagrama é o nove na quinta posição, que diz: “Alguém se vê forçado a uma conduta decidida. Mas ao mesmo tempo é necessário permanecer consciente do perigo inerente a tal atitude, em especial quando ela deve ser prolongada. Só a consciência do perigo possibilita o sucesso.”

— Quer dizer que estou em perigo? — Perguntei assustada.

— Não era apenas um jogo de sorte? — Barbie ironizou.

Rob cortou seu longo silêncio:

— Acho que quer dizer para tomar cuidado… para se precaver… Se vai entrar numa selva com tigres, então leve um rifle e tenha conhecimento de que ali tem tigres.

Era tudo arenoso, a racionalidade de Darwin jogada na mesa de um lado e a imprecisão mística do que Jung acreditava, do outro. Peguei o dicionário de símbolos e folheie, tentado me focar em outra coisa, e não menos incerta: círculos… círculos concêntricos.

Algumas imagens ilustravam a página, o Sol, a Lua, um espiral da idade da pedra. O que me chamou atenção foi um monumento megalítico com um padrão circular concêntrico, que se alinhava com o movimento do Sol no decorrer do ano, o Stonehenge. E no fim da página a informação de que nele os círculos concêntricos eram usados para representar santuários, e as linhas desenhadas entre eles, caminhos de seres mitológicos e pessoas comuns.

— Olha isso… — mostrei a página que falava dos círculos concêntricos a Rob, enquanto Barbie trocava mensagens no celular.

Rob leu por uns minutos:

— Sim, na arte australiana dos aborígenes do deserto ocidental, esses tipos de círculos sugeriam locais onde os antepassados poderiam sair da terra e retornar. E…?

Fiquei em silêncio, era melhor me calar. Tudo isso era perda de tempo, a vida era assim mesmo, era para não ser explicada, era aleatória…

— Reencarnação? — Barbie tirou a vista do celular por alguns segundos.

Rob sorriu. — Pessoas não se repetem, arquétipos sim…

— Arquétipos? Como o malvado, o herói, o bonzinho…? — Barbie perguntou.

— É, mais ou menos, mas é. — Ele abaixou a cabeça e suspirou. — Eu não suporto pessoas assim! Acreditar em reencarnação é um dos atos mais mesquinho do ser humano. Uhhhh — ele levantou as mãos e sacodiu de maneira afetada — acrescente à lista acreditar em Paraíso e outras coisas do gênero! É muito fácil tentar aplacar o próprio medo da morte dessa maneira.

— Calma, bonitinho, não queria ofender ninguém, foi só uma suposição. — Barbie se defendeu ofendida.

Eu cuspi o que achava em cima dela:

— Você realmente acredita que a vida sendo como é, cheia de catástrofes, doenças, violências… teria um final no qual você morre e pode tentar várias vezes até acertar? Como num jogo de videogame? O grande objetivo da vida é nos matar. É fazer com que não consigamos. É nos fazer desistir!

— Eu não acredito em reencarnação, mas a forma que você fala é muito pessimista… Você acabou de descrever o Diabo dos cristãos, só que de maneira racional.  — Rob murmurou.

— É sim. — Barbie concordou.

— Não é pessimista, é realista. As pessoas têm o direito de acreditar no que quiserem. — Tentei me explicar.

Rob continuou:

— E se não fosse nossa consciência que voltasse, mas os ideais, as ideias, os sonhos, os desejos, o amor, o ódio… ou seja, as emoções e as sensações que nos usassem como instrumentos para irem amadurecendo no decorrer do tempo?

— Faz sentido… — Eram possibilidades novas para mim, pediam várias reflexões, mas era lógico.

— Faz muito sentido… — Barbie parecia interessada. Ela tirou seu brinco arredondado e o colocou na mesa, ele vai girando tortamente depois cai no chão e para. — Viram? Tudo procura um equilíbrio — ela levantou — mesmo que momentâneo — e pegou o brinco.

— É! Talvez tudo seja um caos à procura do equilíbrio ideal. — Rob deu um sorriso sarcástico em direção a Barbie — Você é bem mais esperta do que imaginava…

— Se… se… — tomei a palavra e me atropelei pela empolgação — se tudo na natureza tende a um equilíbrio, talvez os arquétipos, como a Barbie falou — ela fez uma reverência — sejam assim. Imaginem um saco cheio de bolinhas de gude, à medida que o tempo vai passando você vai completando sua coleção, coloca uma bolinha azul, outra verde, uma rosa… e essas bolinhas vão aumentando e fazendo parte da coleção. Sabe? A busca da coleção perfeita. E quando você morre, coloca ela na estante e outra pessoa que nasce pode pegá-la para a vida toda ou por um período, dependendo da sua inteligência, cultura, índole, sei lá. Pode pegar um cheio ou pela metade. Um bom ou mal. E pode dar sua contribuição, deixá-lo como estar ou jogar algumas bolinhas fora.

— Parece assustador. — Rob devaneou.

— Por quê? — Perguntei intrigada.

— À medida que o tempo passa, o bom pode ir ficando cada vez melhor, mas… — ele passou a mão pelos lábios dando certo suspense — o mal pode ficar cada vez mais mal.

Fora nossas discussões iniciais sobre I-ching e arquétipos, o silêncio pairou na maior parte do tempo.

Estávamos há horas na biblioteca. O dia estava quente, quente demais. E para ajudar, o ar-condicionado não funcionava. Tinham ventiladores no teto, mas eles estavam parados. Barbie sacudia as mãos e Rob fez até um leque de papel.

— Isso aqui está muito quente ou são meus poros que entraram em depressão? — Barbie pegou um livro para usar como leque.

— Rá! — Rimos os três.

— Concordo, esses livros vão se deteriorar com um ambiente quente assim e num clima desses.

— É mesmo. O clima daqui é um saco! As flores não nascem, as folhas não caem, não neva, o sol é escaldante… e os mosquitos? Por favor! Pode anotar aí, mestrado na Europa. E no dia que eu for é para sempre! — Esta era a Barbie hostil.

Se fosse em algum outro momento eu discordaria e iniciaria uma discussão, mostrando as vantagens do nosso clima, entretanto, minha cabeça não andava como antes. A maior parte das questões que me incomodavam não existia mais.

E sabe por quê?

Porque elas eram completamente irrisórias se comparadas ao fantástico mundo novo que descobri depois do meu choque anafilático. Ou existia um mundo absurdo que ignorávamos ou eu estava fora da escala de normalidade.  E eu faria qualquer coisa para que a última opção não fosse verdade.

Wake up, Savana! Acorda! — Barbie estalou os dedos na minha cara, o que me irritou muito, pois me lembrava de mamãe.

— Então vamos acabar com esse calor? — Apontei o ventilador sobre nós, levantei e procurei o interruptor.

— Como não o vimos? — Rob perguntou incrédulo do seu deslize.

— Também com um teto dessa altura… quem vai conseguir vê-lo? Só a Savana mesmo! — Barbie me alfinetou, ela era pior que eu quando estava com calor.

Liguei o ventilador e sentei novamente. Ele estava quase sobre mim, nas minhas costas, girava lentamente, num ranger perceptível.

— Droga, Savana! O ventilador está fazendo muito barulho! Você devia ter deixado desligado! — Rob, meio que influenciado por Barbie, começava a pegar no meu pé. Percebi, novamente, aquele incomodo comigo que ele vinha tentando disfarçar.

— Ok! — Concordei, levantando para desligá-lo e assim evitar mais discussões ou comentários.

A mesa estava muito desorganizada e isso me incomodou. Empurrei minha cadeira para trás e estiquei o corpo para frente, me curvando sobre a mesa, na tentativa de organizar os livros.

Um trincar agudo ecoou de súbito do teto.

Meu corpo petrificou.

Um barulho imenso se propagou pelas estantes de livros… Entre Proust, Baudelaire, Jung, Darwin…

A poucos centímetros atrás de mim, o ventilador de teto se espatifou no chão.

E o que se seguiu foi um longo silêncio.

Os olhos de Rob pareciam duas bolas esbugalhadas de tanto pavor:

— SA… VA… NA… Savana… Você escapou da morte, graças a Darwin! — Concluiu ao ver meu corpo inclinado sobre a mesa na tentativa de empilhar a livro Teoria das Espécies.

Não conseguia me mover, mas se eu não tivesse levantado estaria muito mal nesse momento. As poucas pessoas da biblioteca vieram ver o que houve.

E alguns funcionários se aproximaram: — Vocês estão bem?

— Sim, eu acho. — Rob respondeu atordoado.

— Essa droga aqui não tem manutenção? Vocês quase matam minha prima! Vou denunciar essa espelunca de livros! Vocês não deveriam abrir as portas nessas condições! — Barbie gritou com os funcionários, que pareciam tão aterrorizados quanto nós com o acidente.

— Venham, acho que ela precisa de um copo d’água com açúcar. — Não vi quem falou, mas tinha uma voz doce e maternal.

Eu ainda me encontrava inclinada na mesma posição, não me movi. Para ser sincera, nem respirei, pelo menos a petrificação me livrou de uma crise de pânico ou de asma.

Barbie segurou meus braços, me arrancado da posição estátua e me guiou, me mantendo em pé praticamente com a sua força.

Já numa sala que funcionava como um local de lanches, Rob me entregou outro copo d’água e me fez a pergunta que ouvi umas oitenta vezes nos últimos quinze minutos:

— Você está bem, Savana?

— Estou, mas foi por pouco…

Barbie se abaixou para ficar no meu mesmo nível de altura, eu estava sentada:

— Foi sim! Choque anafilático, batida de carro, e agora? Uma quase morte! Você parece um personagem do filme Premonição! O primeiro, porque os outros foram uma vergonha!

Tinha uma porta no fundo da saleta que dava acesso a um corredor. — Para onde vai aquele corredor? — Perguntei à funcionária de voz doce, substituindo parte do trauma do susto por curiosidade.

— Vai dar no arquivo de jornais e revistas. A sala passa por uma limpeza rigorosa, estamos tentando resolver os problemas de conservação. Então ela foi interditada por umas semanas.

— E já fizeram a limpeza? — Perguntei, pensando que seria legal ver alguns jornais antigos, mas receava de ter uma crise de asma por causa da poeira.

A funcionária encolheu os ombros — você sabe como funcionam as instituições que dependem de verba do governo, de burocracia… há mais de quatro meses a sala está fechada e apenas uma parte foi limpa.

— A gente pode ver os jornais? Eu queria pesquisar algo. — A ideia de vê-la era tentadora demais para recuar

— Savana, você quase teve a cabeça partida hoje, é melhor a gente encerrar as buscas e ir para casa — Barbie parecia preocupada.

— Barbie tem razão, é melhor terminarmos por hoje… — Rob apoiou.

Eu ignorei os dois — posso ir lá dar uma olhada, juro que não tiro nada do lugar. — Pedi à funcionária.

— Ok, vou deixar como pedido de desculpas pela manutenção precária…

Levantei-me.

Fui em direção ao corredor guiada pela funcionária.

Rob e Barbie se entreolharam. Eles nos seguiram irritados.

Assim que entrei no arquivo vi logo várias revistas, empoeiradas e empilhadas, de circulação nacional das últimas décadas.

No centro da sala havia três mesas, com grandes pastas plastificadas, contendo jornais antigos em ordem cronológica.

Nos jornais a busca parecia clara, já que meu objetivo era: Dante Alighieri. Se, pelo menos, eu soubesse algo sobre a família dele, fora a morte prematura… Folheei as sessões de política e economia dos últimos anos e não havia nada… era frustrante.

Rob estava perdido nas revistas e Barbie olhava concentrada outra pasta de periódicos.

— O que devo procurar, gatinha? — Barbie perguntou com certo sarcasmo.

— Procure o que quiser, estou só de bobeira… — Respondi, sem querer dizer a verdade.

— Savana! Você não me engana… — Ela se calou por um tempo — estou procurando por Dante Alighieri?

Eu não respondi e continuamos em silêncio.

— Sa… va… na! — Ela gritou, compassadamente, num daqueles seus ataques para expressar algo extraordinário.

Mas a empolgação dela não me empolgou — o que foi Barbie?

— Dá para falar baixo! — Rob veio se aproximando.

Barbie continuou — olha o que eu achei numa coluna social de junho de 2001!

— Aff… é demais, coluna social? — Rob protestou, voltando para as revistas e nos dando as costas.

— Prestem atenção! Vou ler “filho de renomado pesquisador e milionário, órfão desde os quatro anos — era Dante! Movimentei-me rapidamente até ela, para ver a notícia com meus próprios olhos — está na cidade com seu tutor para ver propriedade herdada. O garoto já na puberdade é de uma beleza atípica (preparem-se, garotas, porque o príncipe herdeiro ainda não tem uma princesa!) — Barbie caiu na risada — adoro estas colunas! Continuando… E parece gostar de esportes radicais!”

Havia uma foto dele numa loja para equipamentos de mergulho e outra foto numa área aberta de um shopping da cidade. Ele em segundo plano e em primeiro plano, várias crianças brincando.

— Ele parece apavorado. — Barbie apontou a segunda foto.

Dei uma olhada — é mesmo, acho que ele deve ter percebido que estava sendo fotografado.

Rob se aproximou. — Credo! Ele estava mesmo apavorado.

— Eu adorava brincar nesse lugar quando criança.

Barbie se curvou e observou melhor a foto — é, eu lembro… eu também adorava. Ei Savana, não foi lá onde você teve aquele ataque de asma?

Petrifiquei.

As informações embaralharam na minha cabeça. — Foi um ataque de asma com convulsão — corrigi Barbie.

Observando que a funcionária da biblioteca não se encontrava mais conosco. Peguei rapidamente meu celular e tirei várias fotos do jornal. Não consegui pensar nada estruturado, mas algo me dizia que aquilo era importante.

— Pessoal, já deu… — Rob aparentava cansaço.

— Também acho que chega… — Barbie concordou.

— Ok, vamos embora então. — Cedi aos dois.

A única coisa na qual conseguia pensar era naquela foto de Dante.

O dia na biblioteca pública me fez ter certeza do fracasso da minha primeira opção, de tentar encontrar respostas. Já que tudo se perdia em suposições que não podiam ser comprovadas. E aquele acidente me deixou com os dois pés atrás.

Então era hora da segunda opção: Procurar Friedrich.

Ele era um homem inteligente. Era professor da área de filosofia, mas por algum motivo ministrava algumas disciplinas no meu curso.

“Se for para ser vista como louca, que, pelo menos, seja por um esquisitão!”.

Sabia que ele gostava de sentar à tarde sob a sombra de um conjunto de árvores do campus. Já tinha o visto várias vezes por lá quando ia fazer trabalhos.

Fiquei de guarda a certa distância, esperando que aparecesse. Ele chegou, colocou seus livros numa das mesas de cimento, sentou, abriu um caderninho e começou a fazer anotações.

Era agora!

Aproximei-me de súbito.

— Professor Friedrich posso me juntar ao senhor? Preciso fazer algumas perguntas!

Seu rosto petrificou-se numa expressão morbidamente engraçada.

— Vo… Vo… cê me assustou — desabafou. — …Claro, Savana, sente-se.

Seu desconforto era visível. Então tentei ser direta:

— Tem algo de estranho comigo.

Seus olhos iam de um lado para o outro, extremamente incomodado.

— Todos nós temos algo de estranho e nessa escala abstrata de estranheza, uns tendem para mais e outros para menos. — Tentou me confortar.

— Acho que o senhor não está entendendo — suspirei na esperança de ganhar coragem — desde o incidente do “choque anafilático” — abri aspas no ar —, aquele que o senhor presenciou, eu toco objetos… e vejo imagens flutuantes, como visões… elas voam em minha direção e desaparecem em forma de fumaça, por isso estou de luvas, elas bloqueiam as visões — levantei as mãos mostrando – as — e… e eu não vejo mais a cor azul…

Quando terminei de verbalizar tudo, pela primeira vez desde que começou, tomei a real consciência da minha situação absurda. E a expressão de choque no rosto dele por ouvir aquilo também não ajudava.

— Bem que desconfiei… — Murmurou.

— O que disse? — Perguntei na intenção de confirmar o que ouvi.

Com extrema inquietude — existem muitas demências, que começam na sua idade, que podem ter sintomas parecidos.

Ter que falar aquilo era humilhante, mas ser taxada, na lata, de possível portadora de demência… era demais! Eu sabia que era uma situação surreal, mas também sabia que não estava louca!

— Como pode ser tão hipócrita?! Eu sei que você viu mais que uma parede azul naquele hospital… e… e evitar ferro e azul não é nada que uma pessoa diga para outra numa situação normal! — Coloquei o ar dos pulmões para fora com força — eu estou lhe pedindo ajuda porque realmente estou precisando. Não quero um conselho de um leigo qualquer… e não quero ter que repetir o que falei para mais ninguém!

— É melhor mesmo não falar para outra pessoa. Para o seu bem! — Seu tom suou enigmático.

Vários pássaros cantavam entre os galhos das árvores, fazendo com que nossas vozes saíssem numa altura diferente da de costume.

Até que dois pássaros caíram agarrados, no chão, bem na nossa frente — eles parecem mortos… — levantei e me aproximei. Um de olhos arregalados por cima do outro. O macho prendendo seu bico fortemente na cabeça da fêmea, como um galo quando copula.  Virei-me para Friedrich — acha que pode existir uma relação absurda entre prazer e morte?

Friedrich me olhou intrigado, dando depois um leve sorriso. Ficamos calados, um tentando decifrar e expressão do outro.

Ele então folheou seu caderno de anotações, pegou uma folha solta amarelada do tempo e começou a ler, o que a princípio parecia um poema:

Dois pássaros selvagens, duas aves de rapina.

A fêmea se pergunta se ele é um bom caçador. “Ele parece tão frágil”.

O macho se pergunta se ela é ágil. “Ela parece tão pequena e corpulenta”.

São tantos “ses.”

A fêmea tem algumas penas avariadas, ela já conhece seus limites e sabe se defender.

O macho, de penugem intacta, saiu há pouco tempo do ninho. “Mas ele parece tão determinado e sereno”.

“Ela me olha como se eu fosse uma presa.”

“Ele me olha como se eu tivesse todo o tempo do mundo.”

“Existiu outro macho.” Ele supõe.

“Não existiu outra fêmea.” Ela não sabe.

 

Ela espera que ele venha pegá-la, “ele é o macho, afinal.”

Ele tem medo. Seu instinto mais primordial o enlouquece de desejo.

Ela se irrita, o ignora, some por um tempo.

Ele acha que a perdeu.

Ela volta acreditando que sua ausência lhe fez senhora da situação.

Mas ele não está mais lá.

Um dia, ela sofre. Dois dias, ela chora.

Três dias, ela acha que ele nunca existiu e quer arrancar a própria pele.

 

Ele volta. A ignora, entre roídas de unhas.

“Ela não pode saber que é mais forte que eu.”

E só vê-lo é o bastante.

“Ele é mais forte que eu.”

Ele a avalia de longe e não tem mais dúvidas.

Ela se oferece sutilmente entre carnes e penas.

É uma dança.

Ele a quer com seus olhos de um verde selvagem.

Ela o quer com seus olhos de um ocre selvagem.

“Não existem outras como você no mundo.” Ele pensa quando

se aproxima dela.

“Não existe mais o mundo.” Ela pensa quando se aproxima dele. 

 

Escutamos por um tempo, calados, o canto desesperado dos pássaros sobre nós.

— É uma história linda. É sua? — Quebrei o silêncio.

— Não. — Ele sorriu. — É uma lenda de família. O pai do meu avô contou a ele… meu avô contou a meu pai e meu pai me contou — ele desceu o olhar para sua esquerda inferior — quando eu perguntei como saberia que havia encontrado a paixão da minha vida.

— É um mito, um mito de amor.  Ele substitui sua imagem feminina primordial por ela? — Indaguei empolgada.

— Sim.  No amor verdadeiro, o homem encontra a sua anima, aquela fantasia interna de mulher perfeita, e a mulher destitui-se do próprio ego. Ela abre mão de quem é. Essa é a relação perfeita e a mais difícil de encontrar.

— Me parece um tanto quanto machista. A felicidade feminina vem de ela amar sem ter que abrir mão de quem é.

— Se as mulheres são tão independentes hoje e donas de seu “amor livre” — ele fez aspas —, então, por que não me parecem felizes? Elas me parecem mais confusas e perdidas.

O silêncio retornou por um tempo. — Ela vê o mundo através dos olhos dele. — Conclui surpreendida. — Ela matou o próprio ego em prol do prazer?

— Não, em prol da continuidade. — Ele se calou bruscamente. Seus olhos amiudaram, criando uma série de rugas entre as sobrancelhas — seu choque anafilático pode não ter sido um choque comum. — Ele suspirou preocupado e continuou — mas eu não tenho dados que provem isso de forma consistente, porque as poucas pessoas que conheci que diziam ter visões e não ver o azul, após um choque anafilático… em média — esfregava as mãos inquietamente —  morreram um ano depois…

Todo meu corpo tremeu de pavor e a voz parecia petrificada na minha garganta:

— Eu não quero morrer…

— Ninguém quer. Mas houve uma delas que sobreviveu.

— Quem? Onde posso encontrá-la? Talvez ela possa me ajudar.

— Aqui. Está olhando para ela!

Fiquei estática pensando que nada daquilo fazia sentido, contudo nada nas últimas semanas fazia.

— Então por que não foi até mim? Por que assim que percebeu que poderia existir a mínima possibilidade de eu ter sintomas semelhantes aos seus, não tentou me ajudar?

— Eu não tinha certeza, e ainda não tenho… Talvez minha contribuição deva ser mais em observar que agir. As vezes que tentei ajudar não deram em nada, eu fracassei em todas. Talvez seja a hora de agir diferente. Persistir no mesmo erro por décadas é burrice! Tudo tem seu fluxo. Uma sequência. Será que interferir é uma boa ideia?

— Manter minha vida não é uma boa ideia? — Respondi, revoltada com seu comentário.

— E também porque, às vezes, as pessoas não estão prontas, não compreendem o quadro que se desenha na frente dos olhos… Uma criança que não sabe ler não pode ser ensinada senão conhecer o alfabeto. O conhecimento, a compreensão de mundo é gradativa. A única coisa que eu poderia fazer era te observar e lhe dar as dicas corretas, as letras corretas. Se você as entendesse seria hora de te ensinar a ler… de ir um pouco além ou não… Tudo é uma questão de conjuntura! Tenho medo de interferir e sentir novamente o quanto sou impotente.

Seus olhos na direção das minhas mãos cobertas, pareciam perdidos, e os minutos passavam num silêncio gritante.

— Nada faz sentido! Será que eu peguei de você?

—Rá! — Ele deu uma alta risada, como alguém que assistia ao seu primeiro show de comédia. — Acredito que não.

— Se você conheceu poucas pessoas neste estado, se é raro, então estarmos no mesmo continente, no mesmo país, na mesma cidade, na mesma universidade, na mesma sala, é muita coincidência… É como ganhar na loteria.

— Talvez você pertença a uma conjuntura perfeita. A uma probabilidade ínfima, entre várias erradas, de dar certo — ele devaneou.

— Você vê o que eu vejo? — Perguntei timidamente.

— Talvez…

— E por que não usa luvas?

— Porque aprendi a bloquear as imagens. É melhor não ver nada do que ver algo que não vou entender e que nem sempre segue um padrão coerente. Em determinadas situações eu me permito ver, mas só o necessário, focando “as visões”… — Falou, abrindo aspas.

— Você tem alguma teoria? Mesmo sendo pseudo?

— Mesmo sendo o quê?

— Esquece… Tem alguma hipótese…?

— “Cinzenta, amigo, é toda teoria e verde a áurea árvore da vida.” — Ele recitou em monólogo — Fausto. Já leu?

— Não.

— Acredito que as mortes sejam uma espécie de controle natural, sabe? A natureza se encarrega de eliminar seus próprios erros. A consciência, o pensar é muito recente na escala de evolução humana. Há dez mil anos não existia diferença entre o que sentíamos, os nossos pensamentos e o que falávamos ou, no caso do homem primitivo, grunhíamos…

— Como quando falou naquela aula sobre o que pensamos enquanto passamos a manteiga no pão…?

— É… — Ele inclinou um pouco a cabeça, aumentando as rugas da testa, se é que seria possível — você pode dar um beijo apaixonado ou vê-lo numa tela de cinema, a reação no seu cérebro será a mesma. Ele reage como se ambas as situações fossem reais. E nos dois casos sempre um pensamento ou uma sensação é formado. Acredito que o que ocorre conosco é que os pensamentos inconscientes saltam para fora na forma de imagens, flutuam pelo ar, literalmente! É um lapso. Vemos coisas que deveriam estar escondidas…

— Não consigo entender — balbuciei envergonhada.

— Imagine uma peça de teatro. O que importa é o palco e a cena que se desenrola. Agora imagina que atrás do palco, separados por apenas uma divisória de madeira, têm contrarregras, atores se trocando, roupas pelo chão… Imagina que a parede cai e tudo que não deveríamos ver se mistura com o que vemos numa salada de informações… Bem, é isso que está ocorrendo com você.

— Nossas visões são como uma retomada de um erro que parecia superado… ou camuflado? — Perguntei, e seu semblante respondia com uma expressão de reflexão. — Mas por que as visões surgiram só agora?

— Não sei… algum estímulo talvez.

— Que tipo de estímulo?

— Não sei… pode ser uma comida, algum agente químico, pode ser qualquer coisa.

— Naquele dia teve aquela ventania, as folhas desses carvalhos — apontei as árvores que nos rodeavam — voaram pela sala. Será que eu tenho alergia a folhas?

Friedrich riu — olhe para você!  — Estava sentada num banco coberto de folhas, algumas penas de pássaros e gravetos. — Eu creio que não.

As possibilidades eram tantas, eu não conseguia parar de pensar nelas.

— Li há algum tempo num livro de Psicologia, que adolescentes podem ter esse mesmo tipo de visões… que desaparecem em forma de fumaça… deve ter alguma relação…

— E tem… é como uma calibragem do cérebro… Uns são calibrados, outros não, então se tornam esquizofrênicos ou como nós. Suponho. — Quando ele falou isso me senti menos anormal, me senti menos sozinha… — Entretanto, não existe literatura, não tem nada catalogado. Quando tentei publicar artigos sobre o assunto no meio acadêmico me chamaram de charlatão, acredita? — Falou com amargura. — Mas a raiz do problema é outra, é como se nossa consciência fosse um corpo estranho, então não ocorre uma completa adaptação entre corpo e mente. Você é alérgica não é? E talvez tenha asma?

— Desde criança, nunca pude viver de forma normal…

Seu semblante parecia esconder um eureca — era seu corpo tentando expulsar “você” dele… — seu dedo indicador tocava a fronte, apontado para o cérebro, e quanto mais ele falava mais sentia sua empolgação com aquilo — é como uma rejeição, seu corpo tentando expulsar a sua “alma”! — seus dedos abriaram aspas.

— E como ele não consegue me matar?

— Não! Não! Essa é a parte mais intrigante — seu tom ganhava um ar de filme de Hitchcock — as mortes são sempre por fatalidade, acidentes!

Meu coração disparou: — bateram no meu carro há pouco mais de uma semana!

Ele continuou: — e os acidentes sempre envolvem ferro e azul! Por isso tem que evitar as duas coisas…

— Mas é praticamente impossível! — “e insano”, mas essa parte não falei.

— Por isso apenas eu estou vivo.

— Mas eu não vejo o azul?

— Por isso que ver pode ser fatal.

Dante. Entretanto, ele havia sumido… Pensei em mencioná-lo, mas não havia ocorrido nada demais depois daquele dia. Que mal haveria em Dante? Ou que mistério teria os olhos de Dante?

— É tarde. Preciso ir. — Levantei, já passava das cinco e todas aquelas teorias tinham me deixado confusa — mas e as imagens? Que função elas têm?

— Não sei, mas acredito que sejam simbólicas… Determinadas imagens só ocorrem em determinadas situações… porém, nunca consegui especular uma função plausível, como para que usá-las, por exemplo. — Sua voz se tornou terna — nos vemos depois, Savana? Posso tentar, à distância, ajudá-la.

— À distância?

Ele sorriu. Eu sorri e lembrei que na minha opinião somos nós os donos do nosso próprio destino, somos senhores do “fluxo”.

— Nos vemos depois. Tchau. — Segui para o estacionamento.

Eu tinha visões e era… um erro que deveria ser expurgado? E possivelmente iria morrer antes de fazer vinte anos… Por que não era um pesadelo? Assim eu poderia correr para o quarto dos meus pais e abraçá-los, até que amanhecesse.

Dava para contestar tudo que Friedrich disse, mas sabia que era impossível, não tinha como lutar contra. Bastava olhar o céu e ver o efeito surreal de espelhamento, que ficava clara a razão dele.

“Tenho que redobrar minha atenção.”

Falei, com a chave na ignição. Pelo menos saber do perigo eminente me colocava em estado de alerta. E se Friedrich conseguiu, eu poderia conseguir também!

Quando olhei pelo retrovisor, Friedrich passava próximo.

— Quer uma carona?

— Não, obrigado, eu moro aqui vizinho. Há mais de trinta anos não ando de carro ou de ônibus ou de avião…

Balancei minha cabeça negativamente, droga, para viver eu teria de parar de viver?

— Anota meu número de celular, por favor.

— Eu também não uso telefone.

— Internet?

— Não, não… sinto muito.

— Então, tchau novamente.

— Até.