Prima materia



“Será que matei a garota?”

Só consigo ver seus cabelos sendo arremessados para frente no movimento de choque entre nossos carros. Se mova, por favor! Eu já tenho problemas demais e acidente de carro com morte não estava nos meus planos do dia.

Ela se movimenta.

“Ufa!”

Parece procurar algo pelo corpo, observa as dianteiras amassadas e sai do carro. Meus seguranças param em volta de nós. Falam alguma coisa, mas não consigo ouvir com os vidros do carro fechados.

“Tá calor!”

Nem o ar-condicionado resolve nesta cidade! Abro os botões e arregaço as mangas da minha camisa. Ela age furiosamente e grita com meus seguranças, bem que eu poderia deixá-los resolver. Eles são ótimos em contratempos. Mas os dedos dela tremem copiosamente, mesmo que tente camuflar com movimentos bruscos, ela transpira pânico.

“Ela usa luvas? É sério? Num calor desses? Pensa o quê? Que está a passeio no inverno de Paris?”

“Bom. É hora do show!”

Abro parte da porta do carro, mando os seguranças se afastarem e saio. E quando a olho, olho no olho, sinto um enjoo súbito. Antes eu não gostava da situação, agora, não gosto é da garota. De toda essa fragilidade eminente que ela tenta esconder e que saltam de seus olhos. Parece que ela vai quebrar se eu soprar. E… luvas? A única coisa que engulo nela é a camisa que usa. Beatles.

Ela me encara impressionada. Parece que viu um fantasma. Bem que poderia ter morrido… Não é o que eu deveria querer, mas é o que quero.

Não sou o tipo de pessoa que gosta das pessoas, contudo, se é para odiá-las, elas têm que me dar um motivo. Ela não me deu nenhum. Fez tudo certo. Eu que avancei o sinal e a coloquei nesta situação. Não, ela não me olha com ódio, pelo contrário… há choque em seu olhar, no melhor sentido que a palavra possa ter.

Uma fúria queima por dentro de mim e se transfigura numa contração de lábios. “Respire fundo e seja o mais objetivo em se livrar dela e sair daqui. Vou mesmo embora amanhã. É só mandar alguém resolver depois”.

Eu não quero ter que cruzar com essa garota nunca mais.

— O estrago não foi grande, foi? Este carro vale mais do que todo o dinheiro que vai ganhar em sua vida, mas hoje é seu dia de sorte, a culpa foi minha…